*
 
 

Parecia inacreditável. Delírio para uns, pesadelo para outros. A notícia corria, como uma peste contagiosa, pelas ruas do Rio. Tônia Carrero estava feia, bebia, fumava e emendava um palavrão ao outro. Tinha mandado os bons modos às favas. Em certo momento, comia grosseiramente à frente de todos um sanduíche de pão com mortadela, enquanto as lágrimas borravam a maquiagem de quinta categoria.

Naquele ano de 1967, o teatro brasileiro ouriçava-se diante da atriz, já alçada ao abre-alas dos palcos brasileiros ao lado de Cacilda Becker e Glauce Rocha, com a montagem de Navalha na carne, de Plínio Marcos, texto que pela primeira vez era apresentado em palcos cariocas.

Para segurar a personagem, Tônia Carrero enfrentou à censura. Peregrinou pelos gabinetes dos generais ao lado de Plínio Marcos. Argumentou a importância do texto e a permanência de cada palavrão. Diante de tanta firmeza, um militar resolveu liberar o texto com a certeza de que seria um fracasso e a derrocada de uma estrela, talhada no sofisticado Teatro Brasileiro de Comédia (TBC).

O efeito foi inverso. Um sucesso aplaudido por público e pela crítica. Tônia mudava definitivamente os rumos da trajetória respeitada de intérprete. Ganhava o Prêmio Molière por unanimidade e entrava para o panteão das senhoras atrizes do país.

Até o meu marido exigiu que eu não dissesse palavrão algum. Em vez de dizer puta que eu falasse vaca, que trocasse merda por droga. Era tarde, tinha entrado nisso até o pescoço. O resultado todos sabem: dinheiro, prestígio e respeito"
Tõnia Carrero

A prostituta Neusa Suely, de Navalha na carne, é um dos brilhantes capítulos na vida e na obra de Tônia Carrero, um mito de 95 anos físicos e que segue para a posteridade. Por trás da complexa “mulher da vida”, estava uma artista completa, que caminhou, com desenvoltura, pelo teatro, sobretudo, cinema e televisão. Uma intérprete que quebrou o maldito estigma de ser bela, aliás belíssima, e simultaneamente oca.

Antes de ter o talento mostrado à prova nos palcos, Maria Antonietta Farias Portocarrero era uma musa deslumbrante nas areias de Ipanema. Casada com um jovem irrequieto, Carlos Thiré, Tônia arrancava suspiros por onde passava. “Ela iluminava Ipanema, as salas, as praias, as ruas…”, escrevia o poeta Paulo Mendes Campos.

A inclinação para o teatro vinha do pai, engenheiro militar conhecido como Barão. Ao contrário da severa mãe, Zilda, que sonhava com dias de dona de casa para a filha caçula, o patriarca tinha uma queda pelos palcos. Era amigo dos astros Procópio Ferreira, Walter Pinto, Dulcina de Moraes, Jaime Costa e Oscarito.

Sentado nas primeiras filas dos grandes teatros cariocas, era uma figura adorada pelos atores. Um dia, ele confidenciou a sua paixão à filha Mariinha, como Tônia era carinhosamente chamada, mas não alimentou nela qualquer esperança em seguir o sonhos dos palcos. Seria um desgosto para dona Zilda.

Da relação com Carlos, nasceu Cecil Thiré, ator, diretor e companheiro de todas as horas.

E que filho! Uma joia rara. Uma pessoa admirável. Um artista de sensibilidade única. Ele está sempre ao meu lado me amparando, me protegendo e mandando em mim. Nossa, como ele manda em mim. E meu uma família linda, cheia de netos e bisnetos"
Tônia Carrero

A semente estava plantada e o casamento com o jovem sonhador Carlos Thiré abriu os caminhos. O casal foi a Paris, onde Maria Antonietta virou definitivamente Tônia Carrero (ela tinha usado o nome artístico na pequena participação no filme Querida Suzana (1947). Lá, estudou teatro com Jean-Louis Barrault e, quando voltou, ninguém mais a segurou.

Estreou nos palcos ao lado de um jovem advogado: Paulo Autran, que se apaixonou perdidamente e a louco amor foi virando carinho e amizade para sempre. Na peça, Um deus dormiu lá em casa (1949), de Guilherme Figueiredo e direção do grande e esquecido Silveira Sampaio, ganharam ambos o prêmio de revelação do ano, os dois debutando em cena, lindos e talentosíssimos, arrancando críticas apaixonadas.

Tônia Carrero, talento magnífico, que representa uma revelação estarrecedora em nosso teatro. Dir-se-ia não uma estreante, mas uma atriz de longo tirocínio, que alia à belíssima figura a um talento dos maiores. Tônia representa um prodígio”, escreveu Gustavo Dória, em 19 de dezembro de 1949, em O Globo.

Da consagração inicial ao grande sucesso nacional no cinema, foi um piscar de olhos. Tônia Carrero foi convidada para estrelar Tico-tico no fubá nos estúdios da Vera Cruz, a Hollywood brasileira. Dirigida pelo italiano Adolf Celi, à época já comandando com prestígio a principal companhia teatral do país, TBC (Teatro Brasileiro de Comédia).

Os dois se apaixonaram perdidamente e Tônia caiu no centro de um conflito amoroso envolvendo a primeira dama dos palcos brasileiros, Cacilda Becker, que mantinha um romance com o diretor. Não demoraria para que Tônia fosse convidada para o TBC (em 1954), aliás, um sonho perseguido por ela. Seria então a segunda atriz. A entrada foi hostil e inicialmente repleta de rivalidades.

“No ensaio de Dama das Camélias, estava o Celi, que colocou o braço em meu ombro. Houve uma parada cardíaca geral. De repente, Cacilda  saiu de cena. Quando voltou, o refletor saiu de cima dela e, aos poucos, foi me focalizando. Tudo ficou às escuras, menos eu. Eles queriam que eu me sentisse uma intrusa e fosse embora. Tive que enfrentar. Eu tinha o direito de estar ali sentada, como aquela senhora tinha de estar no palco. Éramos atrizes”, rememorou Tônia.

As duas fizeram as pazes pouco antes da morte de Cacilda Becker em 1969. Tônia já estava há uma década com Celi e, Cacilda apaixonada por Walmor Chagas. Ali, numa conversa franca, Tônia revelou que sempre quis ser Cacilda, era seu paradigma de atriz. Resolveram as diferenças.

As duas se uniram na luta contra a censura e enfrentaram destemidamente a ditadura militar. Entraram para a história do teatro brasileiro não só como damas do teatro, mas como cidadãs que deram os braços e foram para a rua de peito aberto dizer não contra a perda de liberdade.

Tônia Carrero fez 50 peças no teatro, 19 filmes e 15 novelas, em 64 anos de carreira

 



 


atrizTõnia CarreroMito do teatroteatro brasileiro