*
 
 

Fui ao Setor Bancário Sul, onde estava instalado o painel do Metrópoles. Por alguns minutos, fechei os olhos e imaginei a plataforma eletrônica de notícias e publicidades em pleno movimento. Depois, voltei-me ao vazio. A sensação de censura é uma das piores que o ser humano pode experimentar. Ser proibido de se expressar, de ter ideias, opiniões e informações em livre circulação por uma força imposta como uma muralha é uma dor incomensurável.

Vivemos esse cerceamento imoral e aviltante em terríveis períodos históricos. O mais recente, o da ditadura militar, foi um assombro confrontado à custa de torturas, mortes e corpos desaparecidos. Pela nossa Constituição, somos livres para ir, vir, falar e se expressar.

Como é possível, em pleno século 21, sermos censurados na capital federal por um governo legitimamente eleito pelo voto?"

Em tempos de incertezas democráticas e de fortes distorções na aplicação das leis nesse país, eis que surge a tipificação cruel da proibição imposta ao painel do Metrópoles: a censura camuflada. Trata-se de uma forma ardilosa, quase maquiavélica, de se apoiar em brechas para interditar, impedir, calar e obstruir aquilo dado como livre.

Parece ser de uma mesquinhez incalculável a artimanha de cassar, ao piscar dos olhos, a autorização tão legalmente emitida. Se, no passado, a censura era um punho forte sobre todos nós, agora, manifesta-se com ares sutis, como uma falsa brisa escondendo o vento forte que está por vir.

Podemos pensar que a gestão pública que cuida de Brasília como Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade foi, no mínimo, incompetente em permitir a liberação de um painel de publicidade dessa natureza, para, posteriormente, ser considerado um grave elemento poluidor da cidade tombada.

Ora, em 2012, na gestão anterior a esse governo, a Comissão da Unesco veio a Brasília e ficou decepcionada. Recomendou 39 ações imediatas para que a capital federal não entrasse na lista de Patrimônios em Risco. Essa discussão, portanto, foi herdada e segue continuamente presente no aperfeiçoamento do Plano de Preservação do Conjunto Urbanístico de Brasília.

Se esse painel fosse uma poluição visual, deveria estar na ordem do dia. Sobretudo numa cidade onde viadutos desabam e monumentos, como a Torre de TV, seguem em estado de descaso crítico. Ao contrário, a Administração do Brasília deu a autorização para instalação do painel como se fosse um elemento pouco dissonante ao tombamento urbanístico da cidade.

Acreditar nessa versão – de que, de uma hora para outra, o painel passou a ser agressor – é atestar a incompetência de uma cadeia pública de órgãos deliberativos. É sugestivo que, na semana da remoção do painel do Metrópoles, viralizou um vídeo com a publicidade do SindSaúde puxando um garrafal “Fora, Rollemberg” diante dos olhos de uma população que, majoritariamente, tem rejeitado as ações desse governo em constantes pesquisas de opinião. Só eu recebi essa mídia em cinco grupos diferentes de WhatsApp num intervalo de 24 horas.

Não é má-fé querer associar essa ação à censura, como o governo aponta aos quatro cantos. Aliás, é democrático articular publicamente essa crítica, com intuito de alertar para os limites da máquina estatal em deter o que constitucionalmente não poderia ser retido.

Nesta semana, o prefeito do Rio de Janeiro, evangélico declarado, encontrou um subterfúgio parecido para interditar a mostra Corpos Visíveis na Arena Carioca Fernando Torres. Para censurar a peça O Evangelho Segundo Jesus – Rainha do Céu, na qual Jesus volta à Terra na pele de uma travesti, a prefeitura articulou, na calada da noite, mil e uma questões relacionadas ao alvará de funcionamento do espaço, sendo que essa pauta estava liberada havia meses.

Assim como em Brasília, o que estava dado como liberado, virou proibitivo. Estranho? Não. Nas redes sociais, o prefeito foi claro: enquanto ele estiver na prefeitura, nenhuma peça de teatro vai ofender princípios religiosos. O político nem viu a montagem de Renata Carvalho. É uma linda declaração de amor a Jesus, o profeta acolhedor de ladrões e prostitutas. Hoje, numa analogia histórica, se Jesus voltasse ao Brasil do século 21, acolheria as travestis: desprezadas, violentadas e mortas pela sociedade brasileira.

Tanto Rollemberg quanto Crivella se escondem por detrás dessa camuflagem cruel de leis e órgãos. Decretam, por razões pessoais, a censura. Imposta não só aos criadores, mas à população.

Em ambos os casos, os que caem combalidos ao chão não são o Metrópoles nem a atriz Renata Carvalho: é a nossa democracia"


CensuraRollemberg censura Metrópolesrollembergcensurametropoles
 


COMENTE

Ler mais do blog