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Nos anos 1960, Roberto Carlos esteve pela primeira vez em Brasília e comentou que a nova capital da República parecia uma enorme fazenda. É possível imaginar o que passou pela cabeça do Rei. A cidade ainda em construção tinha espaços vazios enormes, sem uma alma vibrante. Naquela época, os jovens trazidos para cá pelos seus pais sofriam de tédio profundo. Inventavam festas e situações que os tirassem do marasmo.

Hoje, 57 anos depois, Brasília é a capital fazenda, que dorme com as galinhas. Não temos uma vida noturna que faça da noite o tempo que vibra a alma da cidade ou o desloque do cotidiano político e burocrático. O entretenimento (cultura e gastronomia) cessa antes da meia-noite.

É quase impossível encontrar um restaurante com cozinha aberta depois das 23h. Não há teatros com horários alternativos, nem shows em bares na hora da novela das nove. A radicalidade da Lei do Silêncio acabou com o brilho da noite e estabeleceu uma cadeia infame.

Não há música ao vivo. Sem música ao vivo, não há artistas. Sem artistas, some o público. Sem o público, fecham-se os bares. Sem bares, não há loucura e criatividade. Mataram essa cadeia para dormirmos com as galinhas."

Circulamos à noite pela cidade e a sensação é de que voltamos a ser uma fazenda. Nada contra as bucólicas moradias. Mas Brasília é a capital federal, como Buenos Aires, Santiago e Lima, que têm noites fervilhantes e movimentam uma indústria de entretenimento poderosa. Aqui, estamos sendo vencidos pela comodidade dos desejosos em manter a cidade no provincianismo.

Não há nada a fazer depois de meia-noite. A boemia e a loucura construtiva que aparecem nas madrugadas foram banidas. O Beirute, histórico bar da diversidade, fica às moscas logo cedo. Antes, ficávamos ali, resistindo aos tradicionais apagões até as três da manhã. Agora, falta gente.

E a culpa não é da Lei Seca. Em tempos de Uber, tira-se de letra a máxima: se beber, não dirija. Mas os empresários da noite não estão conseguindo seguir madrugada adentro. Não vale a pena. Tudo pode virar barulho que acorda o burocrata do bloco A. E barulho é multa e alvará cassado. Brasília virou o Setor de Mansões Isoladas.

Eu sou solidário ao hóspede que chega e acha tudo um tédio. Com “T” enorme. Eles são obrigados a ficar no Setor Hoteleiro olhando os monumentos apagados, mortos. A vida escoou da noite. Os prejuízos são enormes. Os teatros estão fechados. As boates ficam a léguas de distância. A rua está vazia. Os ônibus são recolhidos cedo. O metrô, nossa vergonha, além de minúsculo e sem expansão, é encerrado como se tivesse operando numa cidadela. Os últimos governos do DF, inertes e insossos, acentuam esse ar modorrento.

“Que Pena! Brasília é chata”, disse um amigo que está aqui em temporada. “O que tem me consolado é a lua, sempre majestosa no céu da cidade”, ponderou. Não há argumentos para discutir com ele. Prometemos nos encontrar em São Paulo, mês que vem. Será uma noite inesquecível.



lei do Silêncionoite de brasília
 


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