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Cento e quinze pessoas tiraram a roupa e formaram imagens com seus corpos desnudos em torno do Museu Nacional Honestino Guimarães, batizado com o nome de um dos desaparecidos políticos da ditadura militar. Essa associação me provocou profundamente. Pessoas nuas e vivas em torno de espaço-arte que remete a um humano sequestrado, torturado e morto. Jamais encontraram-se os ossos. Essa foi minha leitura, política e histórica, meu impacto como espectador dessa obra que se imortalizou pela lente do fotógrafo Kazuo Okubo.

Talvez, poucas pessoas tenham visto a performance do Cena Contemporânea por esses olhos. Pouco importa. É arte, que abre janelas inimagináveis. Há quem tivesse viajado nas imagens dos corpos agregados, deixando de ser indivíduos para se tornarem um todo, palpável aos olhos. Ou ainda quem aspirou à sensação de extrema liberdade ao ficar diante de centenas de humanos livres de suas capas cotidianas num espaço público sacralizado dentro da cidade.

“Fotona”, o maior nu coletivo feito num Centro-Oeste com fama de interiorano, ganhou incontáveis significados. Um dos mais imediatos e pragmáticos: um grito mudo de basta a “Brasília Tia-Velha”, que deseja todo mundo na missa de domingo, dormindo cedinho antes da meia-noite, reinar absoluta sobre os vãos dos monumentos.  Aquela que ficou corada de vergonha porque um artista fez um nu artístico na mesma praça e aplaudiu a polícia prendê-lo como se fosse um infrator.

Diante das fotos de Kazuo Okubo e do projeto idealizado pelo jornalista e colaborador do Metrópoles Diego Ponce de Leon, indivíduos que obedecem a Brasília Tia-Velha saíram em sua defesa. Alguns sentenciaram fases como “bando de desocupados” ou “nu em arte é apelação”.  A provocação é uma das essências da natureza artística. O que acomoda, o que reitera o status quo, o que põe as coisas no lugar. Nada disso é arte. É discurso alienado, que assume diversas naturezas, a política, a ideológica, a religiosa. Mas jamais a artística.

O Estado, ao qual estamos submetidos, é pleno quando absorve todas essas naturezas sem hierarquizá-las. O indivíduo pode acreditar nos mil e um deuses que habitam as distintas religiões. O Estado, não. O indivíduo pode querer fechar os olhos diante de um nu artístico. O Estado precisa acolher essa manifestação livre e genuína. O indivíduo pode ir para a porta do teatro orar para que uma peça que discute transexualidade e religião não ocorra. O Estado tem que assegurar a sessão. O Estado é a garantia das liberdades individuais múltiplas e diversas.

A “Brasília Tia-Velha” é a pretensão de um estado que quer materializar os caprichos de indivíduos que não sabem ser indivíduos num Estado de liberdades conjugadas. A “Fotona” vai entrar na nossa curta história de 57 anos como um basta nessa “senhora ultrapassada”, que nasceu modernista e, hoje, almeja ser essa carola amedrontada pelo ato de existir.

Essa performance fotográfica ficará na história de luta pela vigência da “Brasília, menina contemporânea”, que nasceu para ser e representar a capital de milhões de coletivos que formam o país"

Um salve ao Cena Contemporânea e sua capacidade de conjugar as inquietações.



Cena Contemporânea 2017
 


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