*
 
 

Numa recente viagem a Buenos Aires, visitei a casa onde o ídolo Carlos Gardel viveu a juventude. Impressionante, caminhar pelos cômodos vivos da residência. Ali, estavam misturados objetos pessoais e seus discos. Todos guardados pelo zelo da mãe durante décadas até virar um espaço memorial. Foi emocionante reconstituir a história pessoal e artística desse orgulho argentino por meio de fragmentos.

É um erro findar a memória de um artista no campo final de sua arte"

Objetivamente, podemos pensar que o legado de Carlos Gardel está na preservação de seus discos, no registro de sua voz em diversas plataformas. No entanto, a memória é um espiral composto de subjetividades. Forma-se em camadas: dos objetos físicos à oralidade.

Enquanto estiverem vivas as pessoas que testemunharam Carlos Gardel em carne e osso, mais presente ele estará nos relatos e nos olhos brilhantes de quem o viu e sentiu na pele sua arte, suas alegrias e desalentos.

Nesta semana, a celeuma envolvendo a família de Renato Russo veio à tona e me fez lembrar desse exemplo portenho. Com carta publicada nas redes sociais, a irmã Carmem Manfredini expôs a doação de acervo íntimo de Renato para bazar solidário no Retiro dos Artistas, numa decisão unilateral do sobrinho e filho do líder da Legião Urbana, Giuliano. A carta da tia e o áudio-resposta do rapaz estão minados por rancores.

É desolador esse desencontro entre o herdeiro legítimo de Renato Russo, Giuliano, e a família Manfredini. Não pela briga em si, algo pertinente ao campo íntimo de qualquer casa. Mas, sobretudo, pelo prejuízo que o legado de Renato Russo sofre de imediato.

Li a carta-desabafo da irmã Carmen e imaginei a dor da matriarca, dona Carminha. Ouvi também o áudio do filho que virou um homem defensor da obra do pai. São verdades apartadas pelo desencontro. Entre uma e outra, salvo todo o sentimentalismo, fica uma derradeira sensação: a história pessoal e artística de Renato Russo é o objeto em risco.

É um equívoco imaginar que as roupas pessoais, os discos do ídolo da Legião Urbana e outros relicários não estão no campo primaz da memória. Um dos pontos essenciais da manutenção da obra de Renato Russo, o excelente livro O Filho da Revolução, de Carlos Marcelo, usa, em sua narrativa, esses elementos, como fragmentos para compor um delicado quebra-cabeças sobre a personalidade do biografado.

No entanto, deixar esse material num quarto “gritando por um tempo”, como se refere Giuliano, é tão violento quanto lançá-lo num bazar para mil mãos.

Guardar, já dizia o poeta Antonio Cícero, é pôr o objeto em outra relação dinâmica.

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

O trabalho que Giuliano Manfredini fez com o legado direto de Renato Russo ao lado do MIS é extraordinário. Lançou a obra dele em outro espaço de memória. Merece aplausos"

O cuidado da família de Renato Russo por todos os bens do artista também merece respeito. Foi graças a essa vigília, mesmo sem técnica de preservação e manutenção, que Giuliano pode dar um caminho mais profissional a uma parte desse espólio.

Giuliano e a família Manfredini, por pior que sejam as feridas, têm, em comum, a sina de, juntos, serem os guardiões da vida e obra de um artista ímpar. Só interessam aos abutres que eles se dividam. O entendimento não é só uma ideia romântica de harmonia. Trata-se de algo essencial ao bem maior: o legado.

Como seria interessante se Giuliano retirasse da pauta os dissabores e cancelasse esse bazar. Como seria bom se a família trocasse o discurso mais sentimental por um apoio ao trabalho dedicado e firme desse rapaz.

Já pensou entrar numa galeria com os objetos íntimos de Renato Russo e assistir a vídeos-testemunhos de dona Carminha sobre o cotidiano do filho?"

Renato Russo é maior que esse capítulo íntimo, humano, falível e totalmente possível de se reverter.



 


renato russomemóriacarmen manfredini