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Final de Miss Brasil, nos anos 1960, era como uma Copa do Mundo, com direito a torcida entusiasmada. Foi assim naquele 1º de julho de 1967. Maracanãzinho lotado para apreciar o desfile das 25 candidatas. Quando Anísia Gasparina (representante do Distrito Federal) pisou na passarela, o ginásio vibrou como num gol. Dona de carisma impressionante, a moça de 20 anos e medidas perfeitas (1,72m de altura, 60kg, 92cm de busto e quadris, e 62cm de cintura) transformou a maioria das 30 mil pessoas em um só coração.

A bancada do júri, composta por 10 homens e uma mulher (Adalgisa Colombo, Miss Brasil e vice-Miss Universo 1958), deu o quarto lugar à candanga, natural de Patos de Minas (MG). O palco foi recoberto por uma estrondosa vaia, enquanto a Miss São Paulo, Carmen Sílvia de Barros Ramasco, recebia a coroa, o manto e o cetro.

A imprensa repercutiu nacionalmente o resultado. Na revista Manchete (a mais importante da época), o jornalista Justino Martins escreveu:

As vitórias não precisam de explicação. Mas, no concurso para a escolha de Miss Brasil 1967, de sábado último, houve uma grande vitoriosa (Miss São Paulo) e apenas uma derrotada, Miss Brasília. Nem a primeira acreditava na vitória que o júri lhe deu, nem a segunda, delirantemente apoiada pelo público inteiro do Maracanãzinho, esperava a derrota que lhe coube.

O Globo fez uma matéria de bastidor. Dizia que a Anísia estava nervosíssima e à base de calmantes, irritou-se com o penteado e tinha recebido um gelo das demais candidatas. O jornalista Paulo Max a entrevistou. Perguntou: “Se lhe fosse permitido fazer três pedidos ao Presidente da República, que coisas pediria?”. Anísia respondeu: “Pediria uma casa para minha mãe morar, conforto para meus irmãozinhos e um emprego para mim”.

Se a opinião do público valesse mais que a do júri, a Miss Brasília teria sido eleita a rainha da beleza"
Revista Fatos & Fotos

Mas o que pesou contra a Miss DF? A classe social. Anísia Gasparina era empregada doméstica e morava num barraco de madeira alugado, daqueles de chão de barro e teto de zinco, em Taguatinga. Nunca tinha lido O Pequeno Príncipe e não tinha frases de efeito para lidar com as perguntas dos jurados.

Era arrimo de família. A mãe, dona Raimunda, trabalhava como lavadeira e tinha outros quatro filhos. A história de vida, que mais parecia um conto de fadas, despertou o interesse de todos. Os holofotes se acenderam para a moça de 20 anos.

Na época, eu não tinha condições. Que pode fazer no exterior uma moça que só tem o terceiro ano primário, e na vida só sabe a luta do dia a dia por uma sobrevivência decente, mas paupérrima?"
Anísia Gasparina, em entrevista à jornalista Marlene Galeazzi, da Fatos & Fotos, em 1975

O mundo se abriu para Anísia. A moça, que trabalhava duro para dar de presente um fogão a gás para a mãe e os quatro irmãos, ganhou uma casa de alvenaria do então prefeito de Brasília, na cidade de Taguatinga. Foi convidada a trabalhar na Secretaria de Turismo, recebendo um salário nunca imaginado. Ali, conheceu o futuro marido, um fazendeiro chamado Valdomiro Carneiro.

Depois seguiu para Goiânia, foi estudar e tornou-se uma importante empresária que administra até hoje os bens da família. Atualmente, ela se divide entre a capital de Goiás e Brasília. Não gosta de dar entrevistas. É discreta.

“Logo que casei, fui morar em Goiânia. Lá frequentei o grupo escolar. Pela diferença de idade, as pessoas pensavam que eu era a professora. Curti muito aquela época. Aprender o que estava nos livros era um mundo novo que se abria. Depois fiz o ginásio, o científico, e um curso de educação física.”

Não passava pela cabeça de Anísia participar de um concurso de Miss DF, até ser vista por uma mulher no Clube Alfa que a achou exuberante. Anísia tinha uma frustração em seu passado. Quando menina, tentara ser Rainha do Milho na terra natal, mas terminou hostilizada pelas concorrentes, por conta de sua condição financeira. Já adulta, o convite a deixou confusa. Não tinha condições financeiras para se preparar. A mulher ficou comovida, convocou as socialites e elas ajudaram Anísia. Gasparina venceu a etapa Miss Clube Alfa e concorreu com 17 candidatas ao Miss DF.

Na época, quando ganhou o Miss DF, ouviu da mãe, Raimunda:

“Nunca se esqueça de que você não é melhor do que ninguém, e que todas essas coisas bonitas só vão durar um ano. Depois, você entregará a coroa a outra moça e voltará a ser pobre e humilde”.

Engraçado, às vezes sinto saudades daquela época, sabe o que é? A lembrança da educação que minha mãe, com toda sua humildade, nos deu. O carinho dedicado aos filhos, dentro de um mísero barraco, me ajudou muito, principalmente agora. Graças a isso, não virei uma dondoca sem objetivos. Como agradecimento pelo que a vida me deu, procuro ajudar os outros"
Anísia Gasparina


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