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Quando fechou o negócio para a compra da banca de revistas da superquadra 308 Sul, a jornalista Conceição Freitas recebeu, com a penca de chaves, uma garrafinha de plástico repleta de amendoim triturado. Com o inusitado objeto, havia uma recomendação expressa: alimentar, diariamente, o casal de joão-de-barro. Ela tratou de batizá-lo de Lucio (Costa) e Oscar (Niemeyer).

De quando em quando, um deles se aproxima (não se sabe ainda se Lucio ou Oscar ou os dois se revezando), entra de fininho, entorta a cabecinha, faz cara de pidão e Conceição tem que parar tudo para executar a tarefa. Os dias que se desenham, desde que assumiu a direção da banca, na segunda-feira (05/10), em absolutamente nada se remetem ao tempo em que escrevia no “Correio Braziliense”.

Conceição Freitas alimenta Lucio e Oscar *Michael Melo/Metrópoles**

A dupla de joão-de-barro Lucio e Oscar visitam a jornalista todos os dias Michael Melo/Metrópoles

 

Em 40 dias, aliás, ela foi de um extremo ao outro da cadeia profissional. Deixou a redação, onde o jornal se esboça, e deslocou-se para a ponta final, a interface de venda com o leitor.

Não há mais corre-corre contra o tempo, nem horas a fio sentada diante do computador. As preocupações agora são outras. De manhãzinha, tem que entregar os jornais, um por um, nos apartamentos dos moradores da quadra. Já tem anotado as peculiaridades de cada cliente. Um senhorzinho, por exemplo, precisa que o exemplar seja posto dentro de um saco plástico e preso à maçaneta. De modo algum, pode ser colocado sobre o tapete por conta da dificuldade para pegá-lo. De tardezinha, recolhe o encalhe para fazer a devolução. Tudo é uma descoberta.

Sinto-me como uma mãe que tem o primeiro filho e não sabe exatamente o que fazer. Esses primeiros dias estão palpitantes."
Conceição Freitas

Filho desejado

A 308 Sul foi escolhida para o novo projeto *Daniel Ferreira/Metrópoles**

A superquadra 308 Sul foi o palco escolhido para o novo projeto Daniel Ferreira/Metrópoles

 

O bebê, ou a banca, é um sonho de rebento. É dos anos 1970 e guarda traçado e dimensões daquela Brasília que faz Conceição se derreter de amores. Foi ela quem desejou aquele espaço.

Ao ser dispensada do jornal no qual trabalhava havia 20 anos (os impressos enfrentam uma profunda crise), resolveu buscar um caminho que sondava o coração. Certo dia, rumou para a quadra 308 Sul, entrou na banca, puxou conversa sobre o negócio e o dono, de supetão, sugeriu a compra.

Agora, sou jornalista-jornaleira. Duas profissões em crise (gargalha). Vou continuar a minha atividade de cronista daqui. Vou escrever cotidianamente a história desta superquadra."
Conceição Freitas

A banca já tem wi-fi e o computador está a postos. Dali, Conceição vai contar o dia a dia do ponto de vista de quem sempre olha para o outro com a sensibilidade à flor da pele. Nos arredores, não faltam personagens e histórias de vida. Em poucos dias, conheceu um casal que dirige ônibus e traz crianças de Itapoã para estudar ali. Com a tecnologia em mãos, vai fotografar, escrever e postar narrativas no blog Banca da Conceição e nas redes sociais.

*Michael Melo/Metrópoles**

Ela já recebeu várias propostas de parcerias Michael Melo/Metrópoles

Sabe a imperatriz que é obrigada a sair da cidade proibida porque o império desmoronou? É assim que me sinto. Olho para esse novo mundo e me encho de possibilidades. Aqui, há um silêncio que perdura o dia. Ouço pássaros e esse silêncio que amo profundamente."
Conceição Freitas

Ponto de Cultura
A renovação tem sido diária e começa pela chuva de ideias que recai sobre a banca. Desde que anunciou, na fan page, que agora é jornaleira, Conceição não para de receber propostas para transformar o espaço num ponto de cultura, de saraus, de turismo. Nesses dias, não parou de receber visitas. Uma professora da Escola Parque foi lá combinar de levar as crianças para visitá-la assim que cair a primeira chuva de verdade e aliviar o sol sobre a cabeça da meninada. Ela quer que Conceição conte histórias da cidade.

Violeta, que também soube pelas redes sociais, deu uma paradinha para propor projetos. Com a filha formada em turismo, quer transformar a banca em ponto de parada entre os monumentos. Acha importantíssimo que os visitantes conheçam Brasília sob o olhar daquela que é uma das mais contundentes vozes de defesa da capital patrimônio da humanidade.

Uma amiga trouxe fotos de Brasília que se transformaram nesses cartões-postais e pus à venda. Aos poucos, a banca se transformará numa conveniência que terá uma identidade com a cidade e, daqui, vou continuar veementemente a amá-la e defendê-la."
Conceição Freitas

Parece que Lucio e Oscar, a dupla de joão-de-barro, perceberam a intenção e estão se sentindo à vontade no quadradinho. No tempo em que durou o encontro com a equipe do Metrópoles, um ou outro circulou entre as pernas da gente atrás da mulher que é a cara e a voz desta cidade.

Alguém tem dúvida de que a Banca da Conceição vai entrar no roteiro das 10 coisas mais bacanas de Brasília?

Em tempo: o blog da banca da Conceição já está no ar no www.bancadaconceicao.com.br



Asa SulConceição Freitas
 


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