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Há muitas histórias que envolvem o Catetinho, o Palácio de Tábuas onde despachou Juscelino Kubitscheck. Todas, no entanto, podem ser embaladas pelos acordes de Dilermando Reis, o violinista do presidente bossa-nossa. Professor de violão de Maristela, uma das filhas de JK, era um mestre quando caiu nas graças do idealizador de Brasília.

Tinha mais moral com presidente do que os ministros. Diziam que nem precisa anunciar a sua presença. JK era fanático por violão, por serestas e Dilermando tornou-se uma espécie de Oráculo do governo que se desafiava a comandar o Brasil a partir do interior. Foi Dilermando, por exemplo, quem deu o nome de Catetinho á simbólica edificação em referência ao Palácio do Catete, no Rio.

Ajudei a construir, com minhas próprias mãos, o Catetinho. Meu violão foi primeiro ouvido nos céus da nova Capital e fiz também a primeira música em homenagem à cidade que nascia"
Dilermando Reis

Dilermando Reis andava a tiracolo de JK. Exímio instrumentista, comandava os saraus do Catetinho ao lado do pianista Bené Fontes. Eles tinham liberdade de escolher o repertório de serestas, valsas e todas as canções que embalavam jantares. Não se podia tocar “Peixe Vivo”. Ninguém aguentava mais a canção tocada à exaustão nas visitas presidenciais nos canteiros de obras.

O fascínio do violão de Dilermando era tanto que o presidente, em um dos seus últimos despachos, nomeou o violonista como fiscal da Receita Federal para garantir o seu futuro. Naquele época, esse tipo de nomeação era praxe. Quase inquestionável. E Dilermando foi estudar números para dar conta de uma carreira que em nada tinha ver com o dedilhar das cordas do violão.

Isso não adiantou nada pro Dilermando Reis porque ele foi cumprir o dever dele como fiscal, estudou pra ser fiscal, isso até atrapalhou a vida dele, praticamente largou o violão"
Genésio Nogueira, biógrafo

Juscelino aprendia acordes, notas e dedilhadas no violão com Dilermando. Em horas vagas, tinha o mestre como mestre. O fato era público e inspirou Juca Chaves na canção “Presidente Bossa-Nova”: “Poder ser um artista exclusivista/ Tomando com Dilermando umas aulinhas de violão”.

Dilermando compôs “Sob Céu de Brasília”, que ganhou letra ufanista de José Fortuna

SOB O CÉU DE BRASÍLIA

Em pleno coração do meu Brasil,
de selvas e florestas sem igual
surgiu com esplendor
a mais sublime flor,
que amamos com fervor
Brasília, nova Capital
A Pátria no porvir confia em ti
Brasília, estrela guia do sertão,
tu és o pedestal
da glória nacional
o marco inicial
da nossa emancipação
Tuas noites são lindas e no céu anil
forrado de estrelas o cruzeiro brilha
é o divino Criador abençoando
as glórias e o futuro de Brasília.

Dilermando Reis já era um violonista conceituado antes de criar nas graças de Juscelino. Tinha ido aos Estados Unidos em concerto, fez parte do Regional de Pixinguinha e tinha um repertório de obras-primas compostas para o violão, como ‘Abismo de Rosas’, ‘Magoado’, ‘Noite de Estrelas’.

A amizade com JK despertava ciúmes. Quando Dilermando Reis ganhou um programa na Rádio Nacional, “Sua Majestade, O Violão”, na Rádio Nacional, foi alvo de intrigas palacianas. Mas sua arte falava mais tarde e o programa se tornou um dos mais populares do país.

Dilermando popularizou o violão como instrumento solo e o elevou ao patamar de arte emocionante. Morreu em 1977 e seu centenário de vida foi comemorado ano passado. Em Brasília, ficou tudo às nuvens, sem grandes homenagens. No entanto, gerações de violonistas não param de se debruçar sobre a sua obra inspiradora.



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