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Tenho acompanhado assiduamente, na madrugada, a reprise da novela Vale Tudo, clássico de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères, no Canal Viva. Naquele Brasil da virada de 1988/1989, a situação do país estava fora do controle. A corrupção embrenhou-se pelo cotidiano das personagens.

Em Vale Tudo, era preciso se dar bem a qualquer custo: do casamento por interesse financeiro a se apossar indevidamente de uma mala cheia de dinheiro lavado. A regra era salvar a pele sem nenhum espírito de coletividade"

Na ficção, as personagens refletiam o caos político em que passava o país às vésperas das primeiras eleições democráticas, que consagrariam o desastroso governo de Fernando Collor de Mello, tido até então como a “esperança”, “o messias” e o “salvador da pátria desvalida”. Infelizmente, todos sabemos o que aconteceu numa das mais tristes páginas da nossa história.

É assombroso assistir à novela Vale Tudo às vésperas das eleições de 2018. As semelhanças não são meras coincidências. Trinta anos depois, a corrupção continua a ser a protagonista da nossa vida cotidiana. Agora, a sensação é de que, mesmo acossada pela Operação Lava Jato, a “desgraçada”, como uma vilã esperta, continua a se dar bem com seus golpes aqui e acolá. Basta ver os resultados do primeiro turno das eleições. Para todos os lados, há candidatos investigados e partidos sob suspeita que foram eleitos e bem votados. Agora, como o inescrupuloso empresário Marco Aurélio (que deu uma banana ao Brasil e fugiu rico do país), respiram aliviados sob a imunidade parlamentar.

Como em Vale Tudo, o Brasil de 2018 está rachado ao meio. A mãe, Raquel (Regina Duarte), é inimiga da filha, Maria de Fátima (Glória Pires), que rompeu com a melhor amiga, Solange (Lídia Brondi). Os laços estão desfeitos. De que lado você está? Do fascismo ou da democracia? Dos ricos ou dos pobres? Da Regina Duarte ou da Glória Pires? Da tortura ou da vida? Como um bom roteiro de novela, vivemos num país de polaridades, sem nuances, onde somos agredidos e ameaçados nas redes sociais por tomar um partido. Mesmo que esse partido fosse um “coração partido”.

Em Vale Tudo, a novela, a luta de classes não era disfarçada. Enquanto a rica família Roitman se ocupava em experimentar as maravilhas das novas tecnologias, os núcleos da periferia perdiam o sono para pagar as dívidas. A humanista Heleninha (Renata Sorrah) gastava tubos de dinheiro da mesada com os chamados compacts discs (apelidados futuramente de CDs), enquanto o batalhador Poliana (Pedro Paulo Rangel) se desdobrava para pagar os juros bancários do empréstimo.

No Brasil de 2018, reproduzimos a mesma guerra entre o “candidato dos mais ricos” versus o “candidato dos pobres”, sem um entendimento aprofundado sobre o por que dessas aproximações. Chegamos ao segundo turno das eleições sem ter os dois postulantes frente a frente numa esperada troca de propostas. Era para o Brasil do 17, do 13, dos votos nulos e brancos se unirem em torno da urgência desse debate em rede nacional, cancelado hoje pela Rede Globo. O único debate possível foi criado pelo genial Marcelo Adnet.

Na troca de ideias, expõem-se as contradições e se amadurecem o voto. Nesse “vale tudo” do aqui e agora, pouco importa o que significa o Acordo de Paris para o mundo ou a fusão dos ministérios do Meio Ambiente e Agricultura. Apertar a urna eletrônica virou um frenético flamar de bandeiras.

Na ficção de 1988, as fakes news foram a base de todos os golpes de Maria de Fátima e Odete Roitman (Beatriz Segall). Na vida real de 2018, muitos parecem que estão numa gincana sem regras, que passam e repassam, em velocidade compulsiva, monstruosidades sobre gays, mulheres, artistas, Lei Rouanet, escola sem partido e ideologia de gênero. A invenção do “kit gay” equivale ao episódio da maionese contaminada que Odete preparou para acabar com o restaurante de Raquel.

Ironicamente, Antonio Fagundes (Ivan) é metáfora dessa dualidade entre ficção e realidade. Tanto ele quanto o personagem foram vítimas de fake news.

É tudo assombroso. Em recente pesquisa da agência Reuters, 91% dos brasileiros se informam pelo WhatsApp, um aplicativo em que se posta o que quer, de qualquer origem, editado até num computador de IP suspeito. O espelhamento desses dois Brasis talvez indique o quão continuamos uma nação “infantilizada”, que não tem noção da realidade que se passa a sua volta. Para muitos, o que importa é o “vale tudo” para que a sua paixão prevaleça. Soltam-se foguetes, dançam madrugada adentro e não se tem propriedade sobre os planos de governos e a origem das alianças. Ninguém tem noção do que acontecerá nos próximos capítulos.



 


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