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Para todos os efeitos, Clint Eastwood é um artista da Hollywood clássica trabalhando no cinema contemporâneo. Atenção: não confundir experiência com obsolescência.

No 36º filme como diretor, o cineasta de 87 anos (completa 88 em maio) ousa flertar com a contemporaneidade à sua maneira: chamou não atores para interpretarem eles próprios em 15h17: Trem para Paris (leia crítica), longa sobre três amigos (dois deles militares) que evitaram um ataque terrorista na Europa, em 2015.

Trata-se do novo capítulo da historiografia cinematográfica dos Estados Unidos assinada por Eastwood, cujas recentes páginas incluem conto desencantado sobre heroísmo (Sully: O Herói do Rio Hudson), problematização da vida militar (Sniper Americano) e crônica romanesca da juventude via música pop nos anos 1950 e 1960 (Jersey Boys: Em Busca da Música).

 

Chamar pessoas do mundo real para se representarem é bastante comum no cinema independente. Hoje popularizados por Bom Comportamento (2017), filme de perseguição estrelado por Robert Pattinson, os irmãos Benny e Josh Safdie escalaram Arielle Holmes para o papel dela mesma em Amor, Drogas e Nova York (2014), drama baseado nas memórias da personagem-atriz sobre suas andanças como usuária de heroína na metrópole.

15h17: Trem para Paris não chega perto de certas obras-primas do cineasta, como Os Imperdoáveis (1992) e Honkytonk Man – A Última Canção (1982). Ainda assim, é capaz de deixar o grande público desconcertado.

Ao contrário do que se pode pensar sobre a carreira de um veterano em Hollywood, Eastwood não aceita fazer filmes confortáveis, “fáceis”. Basta repassar a carreira de Sobre Meninos e Lobos (2003), outro filmaço de seu extenso currículo, para cá.

 

Além de um dos mais poderosos estudos sobre luto e irmandade já feitos (Sobre Meninos e Lobos), o diretor criou um díptico ambicioso sobre lados distintos da Segunda Guerra Mundial (A Conquista da Honra e Cartas de Iwo Jima, cujo pôster vemos de passagem no quarto de Spencer em 15h17), desconstruiu sua persona de faroeste e seu Dirty Harry em uma tacada só (Gran Torino), entortou o gênero biográfico (Invictus, J. Edgar) e até especulou sobre espiritualidade e vida após a morte (Além da Vida).

Eastwood trabalha rápido e bastante (36 filmes como diretor em 47 anos, sem contar compromissos de atuação desde a década de 1970), mas erra pouco (Escalado para Morrer, Rookie: Um Profissional do Perigo e talvez um ou outro longa irregular). Um veterano com a lucidez de um jovem no auge da forma.



 


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