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Quando o Porta dos Fundos surgiu, o humor brasileiro encontrava-se na UTI, sobrevivendo de esquetes tolas e repetitivas, personagens preconceituosos e roteiros sem qualquer inventividade. Com vídeos curtos para a internet, envolvendo toda sorte de temas, o canal do YouTube da trupe tem 14 milhões de assinantes e uma equipe diversa.

O conteúdo nem sempre é louvável – o pessoal escorrega lá e cá –, mas o grupo não só refrescou o gênero no país, como abriu alas para outros grandes talentos, a exemplo da rapaziada da TV Quase. O Porta foi para a televisão, com algumas séries no canal Comedy Central. A última delas, Borges (recentemente adicionada ao catálogo da Netflix), calhou de ser uma divertida reflexão sobre a própria produção de vídeos para a internet. Guardando-se às proporções do humor nonsense característico do grupo, a série é faz imaginar o quanto daquelas histórias aconteceram mesmo com eles no começo do canal.

A trama já começa sem fazer muito sentido: um grupo de funcionários da Borges Transportadora é vítima de um golpe aplicado por seu chefe. Os quatro tornam-se sócios-proprietários da empresa, que conta com uma dívida de R$ 800 mil. No desespero, para tentar balancear as contas, a equipe resolve fazer vídeos para o YouTube, sob a promessa da boa rentabilidade do negócio. A primeira temporada tem 10 episódios de 20 minutos, com roteiros bem estruturado e ágeis.

 

A série permeia assuntos tensos sem grandes escorregões. O blackface utilizado no quinto episódio pode ser visto como problemático, mas talvez seja simplesmente um lembrete: não há dúvidas de que pessoas obesas são vítimas de opressão, mas apropriar-se do discurso do movimento negro para conseguir o desejado, desvirtua qualquer discussão.

Além disso, Sonia, personagem de Karina Ramil, merece diálogos mais ricos: beirando à histeria com o namorado ausente, ela é o clássico estereótipo que nós, mulheres, queremos evitar em termos de representatividade.

O principal acerto de Borges é a reflexão sobre como funciona esse estranho mundinho de vídeos na internet. Da relação com os fãs até o consumo das produções em outras culturas – o episódio sobre os plágios de sucesso em um canal do leste europeu é impagável –, a série sabe criticar a produção audiovisual na web. Com uma caricatura perfeita de Felipe Neto no episódio final, Borges se mostra uma válida e divertida maneira de pensar a web e seus influenciadores.

Avaliação: Bom



 


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