Liverpool x Manchester City: rivalidade atrapalha a Inglaterra?

O crescimento do número de duelos entre times tão fortes tende a acirrar ainda mais o sentimento de rivalidade

Robbie Jay Barratt - AMA/Getty ImagesRobbie Jay Barratt - AMA/Getty Images

atualizado 12/11/2019 18:08

Guardiola e Klopp polarizam, hoje, uma das mais acirradas disputas entre clubes do futebol mundial. Com o alto aproveitamento recente de Manchester City e Liverpool, a Premier League enfrenta um inédito período no que diz respeito ao número de pontos necessários para conquistar o título nacional.

As batalhas táticas entre os treinadores não são novidades. A Bundesliga também viveu seu momento de enorme valorização dos confrontos entre Bayern e Borussia Dortmund. Durante determinado período, foi um dos melhores jogos de futebol do planeta. Hoje, é o que acontece com Liverpool x Manchester City. E com a recente queda de desempenho de Real Madrid e Barcelona, talvez o duelo inglês seja a partida mais relevante do futebol mundial no momento.

O que é novidade é o corte de Raheem Sterling da partida da seleção inglesa. O jogador, maior referência da Inglaterra nos últimos dois anos, foi vetado do jogo contra Montenegro por ter se desentendido com Joe Gomez em um treinamento. O motivo? A sequência de uma briga que começou em campo, no dia anterior, no importante duelo pela Premier League.

A vitória do Liverpool naturalmente teve enorme peso para a classificação. A diferença entre os clubes subiu para nove pontos, representando um considerável conforto momentâneo na disputa pelo título. Gareth Southgate tem feito um excelente trabalho no comando da seleção. Um dos maiores méritos tem sido lutar para transformar a mentalidade, em diferentes aspectos.

Desde uma maior flexibilidade tática nas formações do time a uma maior abertura de ideias para influências externas, com o entendimento de que a Inglaterra precisa abrir a cabeça para o que há de interessante no resto do planeta. Com bons discursos, aborda de maneira correta os mais delicados temas, como os episódios recentes de racismo, dando a devida importância ao debate sem deixar de apontar para os próprios problemas internos do país.

Em meio a tantos diferentes desafios, Southgate tenta moldar uma nova e promissora geração. A transição tem sido notável e positiva, com um alto número de jogadores jovens com espaço na seleção. Os resultados também são relevantes, com o desempenho alcançado antes e depois da Copa do Mundo de 2018.

Agora, o episódio da punição a Sterling abre um novo debate. Primeiramente, a decisão mostra personalidade e coragem, já que trata-se do jogador que virou o maior símbolo de uma seleção que resgatou a empatia com o povo. Depois, a questão promove um outro tema curioso.

Em 2017, um programa do canal BT Sport promoveu uma boa conversa entre ex-jogadores da seleção. Frank Lampard, Rio Ferdinand e Steven Gerrard falaram sobre suas carreiras e as memórias dos tempos em que defenderam a Inglaterra. Um dos temas mais interessantes foi a influência do futebol de clubes no ambiente da seleção. Segundo eles (ídolos de Chelsea, Man Utd e Liverpool), a rivalidade gerada pelos embates semanais na Premier League era tão grande que afetava o clima das reuniões entre eles nas datas Fifa.

Não havia uma real união ou empatia entre as referências de uma geração recheada de talento. Inconscientemente, a competitividade entre os clubes impedia uma maior integração, a ponto de Gerrard citar, em tom de admiração, Philippe Coutinho como um exemplo de como os brasileiros gostam, esperam e se divertem com os encontros pela seleção.

Não era uma desculpa pelo fracasso de uma geração. Era uma ampla reflexão sobre o desperdício de várias grandes individualidades que nunca formaram um bom time. Ferdinand cita o sucesso das recentes seleções de base como um possível novo caminho. Segundo ele, o vínculo construído desde cedo entre jogadores de diferentes times pode representar uma mudança.

Só que o crescimento do número de duelos entre times tão fortes tende a acirrar ainda mais o sentimento de rivalidade, gerando uma bagagem que só aumenta de um jogo para outro (como aconteceu nos últimos 20 anos com Man Utd x Arsenal, Chelsea x Liverpool e Chelsea x Man Utd). Foi assim no período mais quente das disputas entre Real Madrid e Barcelona no início da década, quando a Espanha lutava para não deixar o clima afetar um grupo dominante e vitorioso entre 2008 e 2012.

Agora, com a polarização das atenções em Manchester City e Liverpool, a Inglaterra se depara com um problema inesperado e público, mas não inédito. Um novo desafio para Gareth Southgate administrar. Sterling já reconheceu que exagerou e sabe que é capaz de superar o episódio, como já superou casos de racismo e um longo período de perseguição de parte da mídia inglesa. Nos últimos tempos, Sterling transformou sua imagem dentro da seleção e assumiu um papel importante para inúmeros debates. Agora, é o centro de uma nova discussão.

SOBRE O AUTOR
Rafael Oliveira

Jornalista formado pela PUC-Rio. Comentarista no Dazn, iniciou a carreira aos 18 anos no Esporte Interativo e também trabalhou nos canais ESPN

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