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Lembro-me bem de quando perdia tardes elaborando técnicas de cola para a prova do dia seguinte. Era tanta criatividade, em letras miúdas e pergaminhos de papel, que acabava guardando na cabeça a matéria a ser cobrada. Jurava viver a rebeldia adolescente, e mal sabia que estava fazendo o que justamente relutava em fazer.

Hoje compreendo o que eu buscava ali: queria ir além da preguiça de estudar. Ter outros tipos de afirmação. E vejo como, ainda agora, escolho caminhos mais difíceis para chegar ao mesmo lugar, ainda que o resultado seja exatamente o mesmo que tento evitar. Não sou o único a me trair dessa forma, não é?

O caminho mais curto nem sempre é o mais fácil. Essa é a constatação óbvia, mas da qual frequentemente desviamos. Muitas vezes, o expediente simplificado exige impostos altos para que possamos ir adiante. Descobrimos apenas depois, quando o prejuízo já é real.

Perdemos mais tempo com estratégias do que com o ato efetivo. Fazemos isso para evitar o sofrimento inevitável, como quem quer parcelar a dor ao retirar um esparadrapo, tirando-o aos poucos.

Nesses casos, a proteção é um argumento mais razoável do que a malandragem. Buscamos distância daquilo que, em nossa fantasia, possa gerar o dano insuperável. Tememos o difícil porque ele nos confronta com nossos limites.

O imediatismo, força regente em nossa civilização, é mais que uma dificuldade para lidarmos com o espontâneo. Da mesma forma, seria reducionista acharmos que a necessidade frenética de inovação é um sinal de enjoo rápido.

É a nossa crença num sentido existencial que está prejudicada. Somos ansiosos por uma dificuldade grande de encontrarmos algum significado em sermos quem somos. Nisso, encurtamos caminhos. Nossa alma anseia esta pacificação, custe o que custar.

Surdos diante desse chamado e profundamente amedrontados com o que se apresenta como cenário, buscamos antecipações inúteis. Deixamos de perceber que o desafio da vida é justamente viver. O caminho se faz no percurso.

Amadurecer é perceber que não fazemos pelo outro ou para o outro. Tornarmo-nos responsáveis é entender que nenhum trajeto é longo demais, se ele é o meu caminho. Pudera eu perceber, naquela época, que a tarefa de casa promove o conhecimento do aluno, e não do professor.



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