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Nunca mudamos quem somos. Mudamos a forma como lidamos com o que somos.

É só observarmos uma criança: como, ainda muito cedo, aquela natureza particular encontra formas de expressão. O jeito de olhar, o temperamento diante do apresentado, o que é dito e a forma como se diz. Tudo evidencia, ali, na residência de uma alma única. Aos poucos, ela encontra um jeito para existir.

Com alguma atenção, também conseguimos perceber as adulterações que se dão ao longo do caminho. Derivadas dos mais variados motivos – a necessidade de atender expectativas dos pais, as influências do meio, a pressão para enquadrar-se e ser socialmente aceito…

E, assim, falseamos nossa natureza. Ficamos opacos diante de tantos compromissos, esquecemos o caminho de casa. Aquilo que deveria ser o mais simples e espontâneo prega peças. Desconhecemos nossos reais desejos, justamente por não sabermos quem somos.

O “eu falso” acaba sendo uma estratégia funcional para evitar o sofrimento de afirmar nossa real identidade. O preço da autenticidade é alto: fomos criados para sermos bons, não legítimos. Por isso, a sinceridade virou atributo quando deveria ser algo como o nariz – raríssimos são os casos de quem nasce sem.

Muitas vezes, o “cair em si” ocorre de forma abrupta. Como quem mata uma charada, percebemos o que nos faltava. E é como se, instantaneamente, tomássemos consciência da importância de tal atributo. Ironicamente, constatamos: aquilo sempre esteve ali.

A atitude honesta nos leva a admitir: a falta nunca esteve fora de nós, apesar de ser tentador pensar assim. O que nos faz inteiros deriva da forma como nos tratamos, e não daquilo negado de fora para dentro.

Ao perceber isso, podemos repensar o cuidado destinado a nós mesmos. Valorizando atributos que, antes, não tinham espaço. Por isso, inconscientemente, chamamos esse movimento de “resgate”: precisamos recobrar quem somos.

Permitimos que a natureza mais profunda (até mesmo aquela negada com veemência) ganhe espaço, aceitação, utilidade. Formamos, assim, a nossa identidade e o autêntico se revela em nós.

E, daí, podemos experimentar aquilo que, muitas vezes, admiramos e até invejamos nas pessoas que trazem a verdade no olhar. É o mesmo olhar daquela criança que soube aguardar o tempo necessário para amadurecer outras prioridades, embora inúteis. O olhar da criança que nunca deixou de ser. Ela se basta na própria essência.



 


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