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O que vem sem sofrimento não tem valor. Quantas e quantas vezes ouvi essa sentença? De tão repetida, passa a valer sobre nossa vida. A ponto de desconfiarmos do mais fácil – ignorando, assim, o conceito de fluidez.

Temos uma devoção perversa ao sofrimento. Bem provável que por consequência de uma civilização ocidental, fundamentada em dogmas de culpa e falsa resiliência. Especialmente nós, brasileiros, frutos de uma cultura de exploração colonialista, ainda curando chagas da escravidão.

Em nosso inconsciente coletivo, estamos familiarizados com o subjugo, a exploração e a dor. Ficamos hipnotizados com histórias de superação, pois ainda não encontramos caminhos viáveis para os dramas que nos atravessam enquanto povo. Se faltam escrúpulos, aguardamos a nossa hora do revide – quando encontramos alguém mais vulnerável diante de nós.

Quando alguém ultrapassa esses limites, e parece se distanciar desse pacto silencioso em nome da dor, invejamos e desconfiamos de tal proeza. Depreciamos, com sordidez, aqueles que parecem ter traído esse propósito. Julgamos e queremos imputar-lhes alguma pena – de preferência, que eles endossem a culpa sobre si.

Fazemos isso porque aprendemos a desfrutar os benefícios do sofrer. Gozamos com a comiseração, a ponto de sentirmos dó da nossa própria história. Para abrandá-la, compramos barato a nossa indulgência: os pecados de cada dia justificam-se a partir da dor vivenciada. Cada lágrima derramada, ou cada gemido resignado, representam uma vaidade encoberta.

Essa dinâmica não é só a normalização do sofrimento como caminho de vida. Vai além: transforma-se num círculo vicioso, no qual a ideia de paz, conforto e prazer distanciam-se cada vez mais – muitas vezes, sendo projetado para o futuro ou até para uma existência pós-morte.

O desenvolvimento tem o sacrifício como pressuposto. Perdemos para aprendermos a ganhar. Basta observarmos os grandes marcos da vida: a dentição, a alfabetização, as primeiras paixões… Todos funcionam como pontes que nos levam de um estágio a outro da existência. Abrimos mão de privilégios para que conquistemos novos territórios.

Mas nem tudo precisa ser tão duro, tão árido, para ter valor. Também precisamos encontrar a graça nas boas surpresas, nas bonificações que a vida oferece. Nelas podem habitar os bons propósitos da alma. Mas isso só costuma acontecer quando encontramos consonância com ela, quando dela somos servos fiéis.

Orgulhar-se da própria história não é destacar os eventos ruins, nos quais o prejuízo se evidencia. É mostrar no que nos transformamos a partir deles – o que percebemos claramente pela forma como as histórias são contadas.

Ou seja, sofrer vale a pena quando permite ampliar a capacidade de elaboração de experiências, quando encontramos o significado de realização da existência. Até mesmo nas religiões, o martírio só é reconhecido pelo deus quando é motivado por um propósito superior, verdadeiramente espiritual. Fora disso, é vida que se esvai em vão.



 


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