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Não sei exatamente quando foi que nos afastamos. A falta de tempo, as incontáveis atribuições, a vida em desalinho. Essas foram as justificativas usadas para a ausência. Era um acordo tácito: nossa imagem se esmaecia enquanto fingíamos não perceber.

Relutei, mas descobri o que, de fato, ocorreu. Nossos interesses já não mais correspondiam, você não era mais quem eu imaginava – e é bem provável que, para você, eu também tinha mudado. Só não conseguimos ser honestos diante disso.

Sustentar aquilo que tínhamos não era fácil. Mas, em nenhum momento, um amor existe para ser fácil. Amor nenhum é assim. Ele exige de nós uma coisa elementar: a compreensão do outro da forma como ele é.

E, nisso, erramos mutuamente. O que encantava foi se transformando no grande elemento de acusação. Especialmente por causa da intransigência alimentada por nós dois. Apostávamos, ambos, na maleabilidade do outro, e estávamos pouco disponíveis para qualquer concessão.

Fora isso, estávamos sempre muito mais preocupados em justificar do que em ouvir. Nossos ouvidos vão sendo tapados pela cera da vaidade. E ainda usamos o argumento vil do “não querer magoar o outro”. O sofrimento que queremos evitar é o nosso, sempre o nosso.


E assim fizemos com que as menores coisas tomassem as maiores proporções em nosso relacionamento. A interferência de quem estava de fora, por exemplo. Aprendemos a confiar mais nos sensores dos outros, na opinião dos outros.

Mal sabem eles que não somos exatamente quem dizemos ser nos momentos de desabafo. Atenuamos as tintas dos nossos defeitos, negligências e excessos; somos vítimas de feitores invisíveis. Hoje reconheço: o mal sempre esteve mais dentro que fora.

Você não me fez sofrer, como eu quis acreditar. Como ainda acredito, nos momentos em que o egoísmo mesquinho me atravessa. Não há vencedores ou perdedores: há quem teve mais coragem para acatar a realidade dos fatos.


Sinceramente, não creio que poderíamos ter evitado feridas. Elas só foram realçadas, e não geradas por nossa relação. Repetimos, como um disco arranhado, as máculas impostas pela vida, pelas relações presenciadas de perto.

Agora, resta-nos encarar tudo isso como uma oportunidade. Não há volta, creio eu, mas poderemos reescrever o script. Que o próximo término, seja com quem for, não nos leve a esse sofrimento embolorado, rançoso. Que possamos errar novos erros.



 


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