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Não é o fim do mundo. Nem o começo do fim. Nossos dramas continuam os mesmos. Só mudaram os cenários e as circunstâncias. Não busco entorpecer o pensamento às disparidades e divergências que atordoam nossos dias. Elas são graves, mas condizentes com nossas identidades.

Conviva com alguém acima dos 70 e ouvirá um discurso com tom saudoso-melancólico diante do noticiário. Está tudo pior, dizem. Só está diferente, mas não menos intenso que no passado desejado.

Inclusive, ansiar o passado é a mais dolorosa de todas as realidades, por tamanha irrealidade que representa. O meu tempo é hoje. Óbvio, mas aparentemente tão difícil de aceitar.

O que está em questão nessas situações é a nostalgia. O desejo de voltar para casa, de encontrar no passado um lugar agradável, seguro e harmônico. Mas, se observarmos com critérios mais apurados, percebemos que nunca existiu.

Em seu livro Saudades do paraíso (Ed. Paulus), Mario Jacoby correlaciona esse sentimento com a crença num lugar intocado pela dor, sofrimento ou desconforto. Irreal, quando pensamos na existência humana.

O que mais se aproxima desse estado sublime é o colo materno. Nutrição farta, aconchego e acalanto, proteção contra os males de toda a natureza. A total entrega ao estado de inconsciência, de indiferenciação entre o eu e o todo.

Basta lembrarmos que, na tradição judaico-cristã, o banimento do homem desse estado indiferenciado se dá quando ele come do fruto do conhecimento, que dava na árvore da vida. A partir deste momento, acessamos as misérias da existência humana.

Ao termos consciência de nossa condição frágil, finita e limitada, ansiamos um tal progresso, estimado como estado de plenitude. Quem não tem dinheiro, acha que o dinheiro é a solução. Quem não tem saúde, busca saúde. Quem vive só, espera tudo de um amor.

Segundo Jacoby, quanto menos conhecemos o paraíso, mais por ele esperamos. Ou seja, quanto menor for a maternagem recebida pelo indivíduo, maior a expectativa por esse estado de perfeição. Esperará que algo, ou alguém, possa lhe proporcionar a salvação, a satisfação e a harmonia.

E, assim, afasta-se da ideia de um paraíso possível. Neste, os critérios não são rasos e coletivos. Não se quer apenas prazer e alívio, ou a cópia de um modelo irrealizável. É justo o contrário: a realização de quem verdadeiramente somos. Integrarmos, simultaneamente, maná e fruto proibido.

Psicologianostalgiapassado
 


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