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Tendemos a crer que o mal está fora, depositado especialmente naqueles que nos ferem. Gostamos de acreditar nisso pelo conforto gerado. Mal percebemos que nosso comportamento é o insumo responsável por adubar essa hera, o alimento para o veneno que, contra nós, será destilado.

Nossa indulgência, nossa complacência, nosso silêncio diante do erro. Os limites que não são claramente definidos, as permissões nada cautelosas. O medo de ferir, de magoar, de levar ao abandono. Com tudo isso, plantamos armadilhas, as quais, posteriormente, nos enredarão.

Daí não adianta alegar ingenuidade, boas intenções ou coisa do tipo. O mal já está instalado e, secretamente, confessamos a nós mesmos que víamos enquanto ele se enraizava. Menosprezamos sua força de atuação, e este foi o erro.

Por isso, parece doer mais: a culpa de não termos agido na hora certa se encarrega da condenação; e isso quase sempre representa uma dose extra de veneno ingerido.

Parece que, mais uma vez, o segredo está na medida das coisas. Tratar todos com desconfiança é tão ruim como se entregar cegamente. O ponto razoável da balança, no entanto, é resultado do que angariamos ao longo da história, com as experiências.

Preservar-se a qualquer custo parece não ser uma boa saída. Até porque, defendidos em excesso, nunca chegaremos a uma espécie de imunização – na dose adequada, podemos até sentir certos efeitos colaterais da exposição ao mal, mas isso nos fará mais fortes e resistentes para situações posteriores.

Por isso, devemos usar cada bote sofrido para uma profunda reflexão. Especialmente, ao revermos o ocorrido nesse exercício de distanciamento da situação, para sabermos enxergar nossa colaboração até a cena fatal.

Para reconhecermos quais os pequenos prazeres ou poderes, as gratificações que experimentamos até nosso gozo ter sido usurpado, fragmentado pelo outro. Ou, melhor dizendo, o momento no qual entregamos nosso ouro para quem dele jamais cuidaria.

Vale ressaltar também: o acaso que rege nossa vida carrega em si uma sabedoria inata, a qual nos leva por determinados caminhos, a determinadas pessoas. Nem sempre temos uma compreensão imediata das razões de determinadas situações nas quais nos envolvemos. Mas o tempo, sábio professor, está aí para preencher o significado das coisas.

Assim, percebemos que aquele dissabor contribuiu exatamente para aquilo que precisávamos aprender sobre nós próprios. Muitas vezes, um reflexo direto dos nossos excessos e faltas, daquilo que precisamos lapidar para chegarmos ao cerne da alma. Um caminho difícil, mas de grande recompensa, pelo que é capaz de revelar.



 


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