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“A própria sorte faz de cada um feliz.” A ideia de plenitude é individual, e corresponde à natureza de cada ser. Aprender a escutar-se é o caminho viável para uma vida satisfatória.

A sentença inicial, atribuída a Horácio, estampa um dos painéis de azulejos do Convento de São Francisco (Salvador/BA). Na imagem, vê-se um casal de lavradores, pobres e honestos, surpreendidos pela visita de andarilhos pedindo pouso. Repartem, de bom grado, o pouco que têm para comer.

Na despedida, descobrem que abrigaram os deuses Júpiter e Mercúrio. Em troca da hospitalidade, recompensam os lavradores com riquezas e transformam a moradia pobre em um palácio suntuoso.

Entre os africanos yorubá, é contada uma história semelhante. Obará tinha 15 irmãos e era o mais pobre de todos. Numa ocasião, foram consultar o velho sábio, menos ele, que não tinha dinheiro. Foram questionados pela ausência e desconversaram, por vergonha.

O sábio entregou a cada um deles uma abóbora. Sentiram-se afrontados, pelo baixo valor do presente. Na volta, pararam na casa de Obará para comer e passar a noite. Esvaziaram a despensa e, como restituição, deixaram os frutos que tinham ganhado de presente.

As abóboras, porém, estavam recheadas de ouro e pedras preciosas. Quando foi prepará-las, Obará se deu conta das riquezas escondidas. Assim, ele se transformou no mais próspero da família, até o fim da vida, sendo invejado por aqueles que o desprezavam.

O que une Obará e o casal da primeira história não é necessariamente a generosidade ao hospedar, até mesmo quando são escassas as condições. É a fidelidade ao que sentem: o propósito genuíno da partilha desinteressada, a capacidade de confiar apesar da adversidade.

Ambos acreditam na própria sorte, e estão entregues a ela. As riquezas recebidas, metaforicamente, podem ser interpretadas como resultado dessa aceitação. O benfeito era somente um reflexo daquilo que eram: intenções claras atraem as pessoas certas.

Auxiliamos o destino sempre que ouvimos qual necessidade se manifesta em cada momento. A vida pode até parecer simples demais para quem de longe observa. Mas ela não precisa ser assoberbada por acontecimentos ou posses: ela tem de ser gratificante.

E só desfrutamos de tal gratificação quando aprendemos a distinguir o que contempla verdadeiramente nossa alma. Como fazer isso, é a pergunta mais escutada por mim. Entendo como um exercício até simples: despeça-se daquilo que não fará sentido algum daqui a um tempo. O restante não é pouco, é o essencial.

A ambição nos leva ao progresso, mas a fidelidade aos nossos propósitos é bem mais salutar. O pouco pode ser a grande riqueza que nos garantirá a tranquilidade – como vimos nas histórias. A felicidade experimentada é a de não termos sido aprisionados pela escravidão da insaciabilidade.



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