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Estar disponível é uma condição para relações de qualquer natureza. É inviável trocar alguma experiência com o outro se não estivermos minimamente prontos para ceder nosso tempo, redefinir prioridades, empenhar nossa energia. Daí, algumas pessoas resolvem abusar dessa boa vontade.

Num mundo de relações cada vez mais fugidias, um comportamento se torna comum: o estado de espera. Os americanos já batizaram a prática há alguns anos: benching, o “aguardar sentado” pelo momento oportuno em que o encontro se realizará.

O problema é que a tal oportunidade parece privilegiar apenas um dos participantes. É ele quem determina a ocasião propícia, a partir de suas conveniências. Cabe ao outro assumir, passiva e ansiosamente, a espera até ser escolhido.

A prática é evidente em relações a dois, mas não se restringe a isso. Amigos e familiares também podem ser colocados em stand-by. E cada vez com mais naturalidade.

Podemos compreender a prática como um estado intermitente do desejo e do interesse, uma espécie de duplicidade de intenções. Fundamenta-se, especialmente, numa manipulação perversa da carência daquele que aguarda.

Para tal, o bencher (o sedutor) oferece pequenas iscas de carinho, cuidado e atenção. Faz o outro se sentir imprescindível, especial. Mas o “encanto” só funciona quando estão em sua companhia – nos momentos em que decide quando será.

Durante a ausência, discretamente puxam a linha para saber se a presa se mantém. Vez por outra, soltam alguma promessa de encontro no futuro.

Diante de uma negativa mais incisiva, descartam imediatamente o valor antes atribuído. Podem também fazer um discurso vitimário, apelando para a incompreensão ou insensibilidade daquele que deveria estar plenamente à disposição. Sabem que estes são vulneráveis ao argumento, pelo medo de ficarem sozinhos.

E é justo o ponto que iguala os dois agentes dessa dinâmica: uma carência extrema. No caso do bencher, ela é dissimulada por uma suposta superioridade. Geralmente de forma medíocre.

O sedutor é alguém com erosões profundas de autoestima. Ele enxerga na solidão a evidência mais clara de sua problemática. Assim, é importante manter por perto alguém que se disponha a “aguardá-lo” e agradá-lo. É como se tentasse compor um forte exército formado por pessoas aparentemente fracas: para pouco servirá, a não ser para apontar-lhe as próprias insuficiências.

O desamparo é uma marca presente nas memórias de tais indivíduos. Muitas vezes, inconscientemente buscam uma forma de revide contra os abandonos sofridos, contra a insuficiência de afeto experimentado.

Tornar-se consciente das próprias vulnerabilidades é, inclusive, o caminho para libertar os agentes de tais dinâmicas – seja ele o bencher ou o que aguarda. Com isso, poderão aprender o valor do cuidado e do respeito ao outro e, assim, contribuir para sanar o desamor que nos atravessa.



Ausênciarelacionamentosbencher
 


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