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Uma coisa é identificar nossos defeitos. Outra é identificar-nos com eles. Vai da aparência às questões mais profundas da existência: quando nos observamos, percebemos algo a ser melhorado. E é verdade. Mas nem sempre há como, pois uma série de fatores vão além das contingências da vida.

E este torna-se o grande argumento para nos afeiçoarmos sombriamente as nossas máculas. Valoramos a ponto de encobrir os aspectos mais proveitosos. Tornamo-nos reclamões e, consequentemente, injustos.

Enxergamos e validamos a realidade a partir de lentes, que se constroem ao longo da vida. As primeiras (e quase sempre predominantes) foram herdadas da nossa criação.

A capacidade de interpretar quase sempre é resultado da forma como nos situamos (ou fomos situados) no mundo. E isso é resultado dos olhares que nos conduziram, especialmente na infância.

Nesta fase, somos como argila crua, com facilidade enorme para guardar as formas que forem moldadas. Daí vem o tempo e seca, cristalizando conceitos e formas de reagir.

 

Seríamos então condenados a corresponder àquilo impresso na infância? Não. A maleabilidade da argila está preservada, até que ela seja novamente molhada com novos afetos. Muitas vezes, estabelecidos por relações com o outro.

A diferença é que, agora, temos a chance de moldarmos as formas mais adequadamente aos nossos sentimentos. Podemos inclusive dar mais têmpera, evitando o enrijecimento nocivo e propiciando maior adaptabilidade.

Entretanto, muitos não conseguem encarregar-se dessa tarefa. Em vez de buscarem reparar marcas do passado, dedicam-se à comparação – o grande mal no desenvolvimento da alma.

Aprendemos a viver a partir das referências. Mas, quando elas embotam nossa capacidade de percebermos e aprimorarmos aquilo que nos torna únicos, nunca chegaremos a cumprir o verdadeiro propósito da alma.

 

Jung chamou essa jornada de processo de individuação. Ou seja, o trabalho que empreendo para realizar a minha verdade mais pura, me transforma em um ser único e incomparável.

Focar-se no defeito aponta para uma dificuldade de interpretarmos nosso universo de forma múltipla. Afinal, nada pode ser visto como algo exclusivamente bom ou ruim – tudo é uma questão de perspectiva e habilidade para adequação.

Nisso, novamente, o tempo é o maior professor. À medida que amadurecemos, percebemos as prioridades transformando-se com a experiência. Aprendemos a ressignificar, a encontrar novas possibilidades para o mesmo – amolecemos os velhos conceitos para torná-los mais dinâmicos e úteis.

Nessa jornada, percebemos que o rechaçado pode ser o caminho de saciedade da angústia.

Esta é a chave do autoconhecimento: identificar aquilo que revela nosso eu mais genuíno para contribuirmos da melhor forma com o mundo que nos abraça.



 


Autoconhecimentopropósito