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Nesta vida, perdemos mais do que ganhamos. Pode parecer uma visão pessimista da existência, e é bem capaz que seja isso mesmo.

A perda é a constante que nos orienta, desde o momento de nosso nascimento. Afastamo-nos da imagem de completude, da saciedade e segurança plenas, configurada na vida intrauterina. Aquele sossego, nunca mais. Logo, perderemos a plenitude de atenção destinada por nossos cuidadores. Perdemos, nisso, a ideia de sermos o centro: interpretamos o abandono.

Aprenderemos a viver com cada vez menos facilidades e, assim, descobrimos que não temos o controle sobre nossa realidade. O mundo é duro, exigente. Compara nossos atos, sendo muitas vezes cruel ao apontar nossas faltas.

A vida insiste em não se comportar conforme o nosso desejo, especialmente graças ao seu caráter impermanente: quando parece que conseguimos deter o controle sobre algum processo, o inesperado mostra que ainda não fomos suficientes para dirigir os desfechos.

Conhecemos, assim, nossas incompetências e limitações. Percebemos que nem sempre os nossos esforços são suficientes para o êxito. Perdemos então nossas esperanças: conhecemos a frustração, o efeito rebote das expectativas falidas.

Com o tempo, perderemos aos poucos a plenitude de nossa autonomia e do funcionamento dos nossos órgãos. A capacidade de regeneração das células gradativamente diminui, e os efeitos disso vem a partir da disfuncionalidade. Não teremos a mesma vivacidade dos vinte aos quarenta. Nem teremos a mesma saúde dos quarenta aos sessenta.

É uma contagem regressiva, cada dia um dia a menos. Até que tudo acaba. Isso quando não se encerra antes, quando algo nos subtrai do mundo antes da programação que idealizamos.

Tais argumentos deveriam sustentar uma visão niilista da realidade. Mas serve a um propósito contrário: se a constante da vida está nas perdas, o sentido da vida está no que fazemos com cada uma delas. A forma como reagimos e nos refazemos, as resistências aos processos que precisam ser encerrados.

Nossa neurose se sustenta na incapacidade de lidarmos com o que somos e temos de recurso, pois estamos implicados na ideia da falta. Não entendemos a perda como ajustamento à realidade, por supormos sermos menores do que de fato somos.

Até mesmo entre os arrogantes, ambiciosos e mesquinhos, o que tentam compensar a necessidade de fazer crescer uma alma pequena. É a própria pequinez que tentam combater com o acúmulo e o medo da perda.

A entrega confiante, o deixar ir, é o caminho saudável: parar de suportar a tensão daquilo que vai contra o que gostaríamos que fosse.

Felizes dos que compreendem em cada privação uma oportunidade de desenvolvimento. Somente ao sermos confrontados por nossos limites que conseguiremos buscar recursos para expandi-los.



perdaO Sentido da Vidaauto conhecimento
 


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