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Buscar ser uma pessoa melhor me fez ser alguém menos divertido. Certas conversas perderam a graça. Certas companhias, idem. Não é uma questão de não ter bom humor, ou de alguma arrogância. Mas de compreender que uma relação é feita de trocas e, muitas vezes, nos oferecem algo tóxico.

Para ficar claro, até porque cabe ambiguidade à frase, quando digo “ser uma pessoa melhor” não estou falando de privilégio de um em detrimento dos demais. É justo o contrário. Melhoro cada vez que vejo mais semelhanças entre mim e o outro – apesar das divergências, especialmente nas escolhas.

Mas, até nisso, aprendi a ser mais compreensivo. Meu ofício me ensina a cada dia sobre a força do inconsciente. Quanto menor a reflexão, mais ele leva o ego a reboque. Somos mais escolhidos do que escolhemos, e essa é a causa original do sofrimento.

A compreensão é meu instrumento de trabalho. Nunca saberei como é a dor de uma mãe que vê o filho morrer. Mas tento acessar em mim alguma dor geradora de empatia com tamanho martírio. E assim, minimamente, compreendo – o suficiente para acolher suas atitudes, por mais esdrúxulas que possam parecer num julgamento superficial.

Há alguns anos, o sofrimento se tornou um ente íntimo. Convivo com ele dia após dia, em suas mais distintas manifestações, a partir das histórias que escuto.

Isso me ensina como o riso pode ser perverso, como não há piada sem consequências para o outro. O quão marcante é o efeito do escárnio na personalidade de alguém, e quais as consequências danosas que podem moldar comportamentos.

E, ciente de tudo isso, fica difícil rir do ofensivo, depreciativo, acusatório, oportunista. Não compactuo com o discurso vitimista – mais uma lição do consultório. Mas simplesmente não dá para abafar os ouvidos para aquilo que remeta à intolerância, à discriminação, ao abuso.

Calamos por muito pouco, enquanto, intimamente, algo nos indica quando algum excesso é cometido. “Não era a intenção” não pode ser um emblema para encobrir comentários que exponham o outro ao ridículo, às próprias feridas, a vulnerabilidades, histórias ou injustiças culturais.

O mundo só estará melhor quando certas coisas pararem de ser vistas como motes para piadas. Questões de gênero, de fé, de raça, de corpo, de cultura, de condição social. Rir disso faz de você alguém pior. Silenciar torna você conivente. Se a coisa está ruim, é porque calamos diante do que deveria ser denunciado.



 


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