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A comida servida na Confraria do Chico Mineiro, na Asa Norte, advoga em nome da simplicidade. Para um boteco isso é tudo. Para esse bar e restaurante de PFs, a máxima serve como ponto de partida. O segredo não está exatamente na cordialidade personificada na forma de Geraldo Mendes, pois isso é óbvio. Mas na cozinha, comandada por sua esposa, Megume Suda, a Meg.

Igo Estrela/Especial para Metrópoles

Geraldo Mendes e Meg: a dupla que transformou afeto em negócio sem perder a ternura

 

Antes de uma ótima cozinheira e dedicada chef de brigada, Meg é mãe. Começou como tantas outras mulheres – e também homens – que absorveram o labor manual do ato de cozinhar em nome da alimentação da família apenas. Longe de mim romantizar esse processo passado de geração a geração, que é a formação culinária no lar. Em muitos casos, a tal comidinha de mãe ou de avó só funciona se vinculada ao local do afeto. Colocar para vender numa esquina, pra quem tiver passando, é outra história.

No caso de Meg, ela foi generosa o suficiente para estender a experiência doméstica ao restaurante, transformando o afeto em negócio, mas sem perder a ternura. Aqui o ofício é encarado com a seriedade que a cozinha comercial exige. Tudo começa pelo menu de almoço: prato feito, cinco opções diárias (sendo uma fixa, a salada completa da casa, um dos meus refúgios na pressa do dia a dia).

O preço único, com direito a uma entradinha, fica R$ 35. A feijoada de sexta e de sábado, muito bem servida, custa R$ 44, mesmo valor dos pratos de domingo, dia em que Meg trabalha com ingredientes mais nobres, como camarão, bacalhau e cordeiro. A feijoada também ganha um derivado nas sextas e sábados, que é o mexidão (com o famoso “zoião” por cima) mais os elementos do banquete: feijão, carnes, embutidos, torresmo, arroz, couve, farofa, vinagrete (R$ 35).

Durante a semana, contudo, se tem um PF de responsa é o de Meg. Das opções mais corriqueiras que aparecem no cardápio estão coisas muito brasileiras, como o Chico Arrumadinho (picanha de sol, vinagrete, arroz, feijão de corda) combinadas invariavelmente com sua tradição japonesa, caso do tempurá de queijo de coalho que acompanha o preparo.

A picanha passa muito do ponto, o que não é necessariamente um erro nesse caso. Bifezinhos fatiados finos, ao ponto pra bem, representa um padrão da cozinha doméstica brasileira e do imaginário do PF, da cultura marmitex. Ainda vou exigir sempre um ajuste do cozimento, sem medo de ser “Nutella”.

Guilherme Lobão/Metrópoles

Chico arrumadinho: picanha de sol com farofa, arroz, feijão de corda, vinagrete e tempurá de coalho

 

Ora, Meg é uma nissei, portanto brasileira com uma bagagem de cozinha doméstica que também se articula com sua ascendência oriental. Não raro você terá como entradinha uma porção da deliciosa saladinha de bifum de Meg, com kani kama, pepino e gergelim. Dentre os petiscos, o toque nipônico também é o que dá muita graça ao frango à passarinho (R$ 58), feito com óleo de gergelim, mais um toque de gengibre.

O grande desafio em adaptar as receitas domésticas à cozinha profissional está na consistência da entrega, nos pontos de cozimento e no tempero assertivo. A salada completa de Meg se apresenta como ótimo exemplo. Você nunca a encontrará diferente. Bela seleção de folhas, com um molho à base de balsâmico, mais legumes bem cozidos (mandioquinha, abóbora, couve-de-bruxelas), uma omelete que se aproxima do tamagô e o grelhado à escolha do cliente (meu favorito para essa combinação é o filé de linguado).

A brasilidade da cozinha do Chico Mineiro perpassa a comida mineira (ou mesmo a paraense, origem de sua chef). Há o PF clássico brasileiro: bife com arroz, feijão, fritas, farofa. Uma farofa amarelinha, que está presente em uma boa quantidade de pratos, incluindo a feijoada. Não é das minhas favoritas, mas a guarnição é bem feitinha, como tudo por aqui.

De noite, o clima da Confraria Chico Mineiro muda. Saem os pratos executivos e entram os petiscos. Você não vai encontrar carne de sol acebola com macaxeira frita (R$ 59) como a de Meg. Carne macia, bem dessalgada com uma mandioca crocante por fora e suave, quase cremosa por dentro, como deve ser.

O torresmo (R$ 5) é outro item muito caprichado que sai da cozinha. Aproveite para guarnecê-lo com a cachaça da casa, produzida em Minas Gerais seguindo especificações de Geraldo. Na versão envelhecida, traz uma pujança interessante, com um início suave e perfume intenso.

Contudo, a peça de resistência do menu de acepipes para o período da noite se corporifica com a linguiça de Formiga (R$ 39 ou R$ 69 no trio com mandioca e torresmo). Um embutido mineiro de ótima qualidade e que só depende do cozimento acertado, coisa garantida por Meg.

De uns três anos pra cá, Geraldo e Meg ampliaram o bar com a aquisição da histórica confeitaria alemã vizinha, Das Haus. Mantiveram o staff, as receitas — mesmo depois que reabatizaram a casa no ano passado. Gesto muito nobre e uma sacada estratégica importante. A Das Haus vinha ruim das pernas, mas permanecia uma ótima confeitaria. Bom não perdermos o melhor apflstruedel da cidade, ou aquele belo spitzbuben de doce de leite, a torta de ricota e outras bons preparos.

Do menu do Chico Mineiro mesmo, saem poucas coisas de sobremesa. O pudim de leite (R$ 8) e uma belíssima goiabada cascão com queijo da Serra da Canastra (R$ 10) merecem atenção. Mas se quiser escapar dessas duas, apenas visite a vitrine na extensão ao lado da Confraria Chico Mineiro Confeitaria & Café.

Guilherme Lobão/Metrópoles

Apflstrudel da Das Haus: mesma receita, matéria-prima de melhor qualidade

 

Para o imaginário do botequim, Chico Mineiro carrega todo o despojamento necessário, um cardápio bem ajustado às pretensões, carta de cervejas razoável, com opções de litro e algumas cachaças e drinques.

No entanto, encontramos aqui um fator extra, pouco difundido na cultura de boteco por aqui: padrão de matéria-prima de alta qualidade e atenção mais destacada às técnicas de cocção. Valorizo um bom pé-sujo, sua essência e configuração na formação do cenário urbano e das relações que dali se desenvolvem.

Mas quando se fala na experiência do barzinho, devo admitir um grande apreço por casas que vão além da vibe e entregam pratos com excelência e não deixam a temperatura do chope subir. A Confraria Chico Mineiro reúne essas principais qualidades.

E a mineirice não fica apenas a cargo de Geraldo Mendes, o anfitrião cruzeirense. Cabe, sobretudo, a Meg interpretar a memória afetiva dos botecos mineiros, da tradição das veredas sertanejas do estado. E ela faz isso muito bem, mesmo com sua bagagem nipônico-sulista. Afinal, conforme a máxima rosiana atesta: “O sertão está dentro da gente”.

Confraria Chico Mineiro
Na 104 Norte, bloco D, loja 38. Tel: (61) 3963-1956. Terça a sexta das 10h à 0h (sábado, domingo e segunda somente almoço até 17h). Ambiente externo. Wi-fi. Desde 2010



 


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