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O comportamento das gerações Y e Z é alvo de curiosidade de diversos segmentos. Apesar de não haver consenso, a maioria dos pesquisadores compreende os integrantes do grupo Y (também conhecido como millennials) como aqueles nascidos entre 1979 e 1995. Quem nasceu de 1996 para frente compõe a geração Z (os centennials).

O interesse por essas faixas etárias se dá por conta de uma grande mudança nos hábitos e costumes em relação a gerações anteriores, principalmente por causa da introdução da internet no cotidiano social. Uma das práticas que vem perdendo força entre os millennials e os centennials mais velhos (e chamando atenção de estudiosos) é o ato sexual.

Diversas pesquisas comprovam e analisam essa tendência. Como já citado na coluna, um levantamento do professor de estatística da Universidade de Cambridge David Spiegelhalter concluiu que os casais estão transando cada vez menos. A média mensal de relações sexuais caiu de cinco para três, levando em conta os anos entre 1990 e 2010. Os principais motivos para a perda do apetite sexual seria o uso excessivo de tecnologias, como celular e serviços de streaming (Netflix, Spotify, entre outras).

Contudo, esse apontamento parece um pouco contraditório, se for levado em conta que discutir sobre sexo é cada vez mais comum. Nunca houve tantos aplicativos de relacionamentos, nudes e sexting fazem parte das relações modernas, o poliamor virou um conceito não tão distante, revistas para adolescentes exploram temas sexuais, inclusive dando dicas, e é crescente a aceitação e o respeito a orientações e preferências diversas.

Validando as observações de pouca atividade sexual, a pesquisa brasileira Mosaico 2.0, conduzida pela psiquiatra Carmita Abdo, revelou: a faixa etária que mais acredita que sexo é pouco ou nada importante para a harmonia do casal foi a mais jovem, de 18 a 25 anos.

Sinais de um desaceleramento nas práticas sexuais podem ser encontrados em um relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre gravidez na adolescência. Apesar de o Brasil ter uma taxa alta (com 68,4 bebês a cada 1 mil meninas de 15 a 19 anos), o índice tem caído drasticamente desde o início dos anos 2000. A queda também está ligada ao fato que, hoje em dia, as mulheres não se casam tão jovens quanto antes.

Fonte: OMS/OPAS

Apesar de o Brasil não contar com vastos dados sobre a atividade sexual dos jovens, o fenômeno pode ser observado em escala mundial. Uma pesquisa de 2016 publicada na revista científica Archives of Sexual Behavior aponta que 15% dos jovens entre 20 e 24 anos afirmam não ter parceiros sexuais desde os 18 anos. O percentual é o maior desde 1920.

Os dados também revelam que as mulheres são duas vezes mais propensas a não manter atividades sexuais. Entre as sexualmente inativas, as nascidas em 1990 representam 5,4%, enquanto em 1960 o número era de 2,3%. O levantamento foi realizado com 26.707 pessoas nos Estados Unidos.

Umas das possíveis razões para a diminuição de sexo entre jovens pode ser o grande percentual de distúrbios sexuais. Um estudo britânico realizado com 2.392 jovens entre 16 e 21 anos descobriu que mais de 30% têm problemas sexuais. Entre eles, estão disfunção erétil, ejaculação precoce e dificuldade de chegar ao clímax. Cerca de 21,6% dos entrevistados não eram sexualmente ativos. Os resultados foram publicados no relatório National Survey of Sexual Attitudes and Lifestyles

A maioria dos países que busca entender a vida sexual de sua população são nações do primeiro mundo e grande parte encontra uma diminuição nas taxas referentes à prática. Levantamentos na Austrália apontam que casais passaram a fazer sexo de 1,8 para 1,4 vez por semana. Os finlandeses diminuíram as transas e aumentaram a masturbação.

Em cinco anos, os holandeses adiaram a primeira transa de 17,1 anos para 18,6 anos. O índice de virgens entre os solteiros de 18 a 34 anos no Japão aumentou 10% em uma década. Entre os casados, 47% não tinham praticado sexo em um mês.

Outra questão é uma exploração maior do autoprazer. A masturbação tem ganhado destaque nos hábitos sexuais: no Brasil, 44% dos brasileiros praticam até três vezes por semana. A pesquisa Mosaico 2.0 (citada a cima) releva que 82,7% dos homens e 60% das mulheres recorrem a essa forma de prazer. Além disso, entre homens e mulheres, respectivamente, 33,8% e 9,7% acessa conteúdo erótico pela internet.

Em conversa com a repórter Kate Julian, do The Atlantic, a pesquisadora sexual Debby Herbenick, da Universidade de Indiana, ponderou que o que mais mudou no âmbito sexual desde a década de 1990 foi a popularização dos sex toys e do sexo anal, além de comportamentos comuns em filmes pornôs.

Um dos fatores preocupantes relacionados à queda do número de relações sexuais são as baixas nos índices de natalidade. No Brasil, essa taxa caiu de 6,21 nascimentos por mulher, em 1960, para 1,73, em 2016. O percentual corresponde a um nível abaixo da reposição populacional. Pelo mundo, grande parte dos países segue a mesma tendência.

IDH

Os números são alarmantes para o futuro populacional, mas, quando a questão é o sexo em si, ninguém nunca morreu por falta dele. Ao longo dos séculos, a prática sexual se transformou, se adaptou, mas não é possível atribuir as mudanças a um único fator, nem antes, nem agora. O sexo ainda passará por muitas alterações e, não importa como você escolha fazer, o seu objeto primitivo permanece: o prazer.



 


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