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Nos meus tempos de menino, não existia no calendário o dia (ou a noite) de Halloween. É de alguns tempos para cá, tanto no Brasil como em Portugal, que essa tradição anglo-americana começou a ganhar corpo e ares de grande celebração. Ainda que o Halloween tenha uma origem histórica de mais de mil anos, como uma celebração aos mortos, muito semelhante ao nosso Dia de Finados, a verdade é que a festa se sofisticou e se revestiu de um caráter comercial. Coisa que os nossos vizinhos da América do Norte sabem fazer muito bem.

Pois o fato é que na noite fria de 31 de outubro, a campainha de casa tocou algumas vezes e aquelas crianças meio sem jeito, tentando pregar um susto com suas roupas de vampiro ou de caveira, pediam os tais doces ou travessuras. Não havia muito a oferecer aqui, juntei uns biscoitos e umas poucas balinhas (que em Portugal se chamam rebuçados) para a alegria deles. Os meus pequenos, que já estavam em pijamas, acabaram se juntando à turma (ou à “malta” no bom português de Portugal) e foram de porta em porta “perturbar” o sossego dos vizinhos.

Isto me fez parar por uns instantes e pensar: “Quando no Brasil eu iria atender à campainha e deixar aquelas pessoas entrarem em casa, ainda mais estando mascarados?” “Quando no Brasil eu iria deixar que meus filhos seguissem com eles pela rua?” A impressão que eu tenho é que eu vivo numa grande cidade do interior, com toda aquela tranquilidade e segurança dos tempos antigos, que hoje nem as cidades do interior do Brasil possuem mais.

Mas a tradição não para no dia 31. Dia 1º é Dia de Todos os Santos. Lembro-me que na minha infância era um feriadão, pois emendava com o dia 2, Finados. Hoje, no Brasil, só o dia 2 é feriado nacional. Em Portugal é o contrário. O feriado é só o Dia de Todos os Santos. E aqui existe uma tradição nesse dia, ligada ao famoso Terremoto de Lisboa. O Terremoto, ocorrido na manhã do dia 1º de novembro de 1755, foi um dos mais violentos ocorridos no mundo, tendo atingido provavelmente 9 graus na Escala Richter.

A coisa foi feia mesmo, estima-se que morreram por volta de 90 mil pessoas, de uma população de 275 mil lisboetas. A tragédia foi maior pois as pessoas buscaram abrigo às margens do porto e não contavam com o tsunami que viria minutos depois com ondas de 20 metros de altura. Além dos desmoronamentos e do maremoto, incêndios que duraram 6 dias se incumbiram de destruir grande parte da cidade. Toda essa aula de História para dizer que dia 1º de novembro em Portugal é também dia do Pão por Deus.

Reza a tradição que logo após o sismo, a população mais pobre de Lisboa batia à porta dos mais ricos pedindo pão para mitigar a sua fome. A tradição manteve-se ao longo dos anos, mas o “peditório” passou a ser feito apenas por crianças que hoje recebem não apenas pão, mas também doces, bolinhos, romãs, guloseimas e, com alguma sorte, algumas moedinhas também.

Os miúdos batem à porta recitando “Bolinhos e bolinhós/Para mim e para vós./Para dar aos finados/Que estão mortos, enterrados./À porta da bela cruz/Truz! Truz! Truz!/ A senhora que está lá dentro/Assentada num banquinho./Faz favor de se alevantar/P’ra vir dar um tostãozinho”.

Se alguém aparece e atende aos pedidos, “Esta casa cheira a broa/Aqui mora gente boa./Esta casa cheira a vinho/Aqui mora algum santinho”.

Mas, se ninguém atende, os pequenos não perdoam e os versos estão na ponta da língua: “Esta casa cheira a alho/Aqui mora algum espantalho./Esta casa cheira a unto/Aqui mora algum defunto”.

Isso é Portugal, um país ao mesmo tempo tão rico e tão singelo em suas tradições.



 


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