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Depois das longas e intermináveis férias de verão, com as crianças quase dois meses e meio em casa, é tempo de voltar à escola. Em Portugal, assim como em toda a Europa, as pessoas sabem curtir o verão e todos saem em férias para viajar com as crianças e aproveitar o calor, o sol e os dias longos. Nessa “raspa de tacho” de verão, ainda anoitece tarde, por volta das 20h, mas o dia só nasce lá pelas 7h. Daqui a algumas semanas, será hora de guardar as bermudas e as camisetas, e trazer da garagem novamente o guarda-roupa de inverno.

É também a temporada dos novos brasileiros que chegam de nosso país, qual migração de pássaros que migram fugindo de um tenebroso inverno. É curioso observá-los, com o olhar de quem já vive há mais de um ano em Portugal, e perceber nas conversas e olhares as semelhanças e diferenças do movimento que fizemos ano passado.

Os motivos que fazem esses novos portugas virem para cá não mudam, só se acentuam: a desesperança em relação ao Brasil, a violência, a vontade de oferecerem aos filhos uma perspectiva melhor. Quando se fala das próximas eleições, um discurso muito parecido: “depois de outubro, é que vai ter fila no aeroporto de gente vindo embora”. E esse discurso independe da opção política das pessoas.

A sensação que eu tenho – e isso é uma diferença em relação ao passado – é a mudança do tom ou do ânimo das pessoas. Sabe relação de casal quando está desgastada? Enquanto brigam, discutem, quebram o pau, no fundo ainda há esperança de que as coisas possam melhorar. Quando desistem de dialogar e ligam o botão do f…-se ou simplesmente respondem “ok” às mensagens trocadas, é sinal de que o fim chegou. Game over.

Essa é a sensação que percebo nessa relação brasileiros expatriados x Brasil. Arrancaram do carro o adesivo “Não mude do Brasil, ajude a mudar o Brasil.” Não vêm para uma temporada e, não dando certo ou as coisas melhorando no Brasil, voltam. Não cogitam dessa hipótese. Não têm plano B. Se não der certo em Portugal, vão para a Albânia ou para a Islândia, mas não voltam.

Claro que esses brasileiros ainda estão vivendo uma lua de mel com Portugal. Encantam-se com a possibilidade de falar no smartphone na rua deserta às 11 da noite. Maravilham-se com o caixa eletrônico no meio da rua, sem aparatos de segurança. Acham os vinhos baratíssimos e excelentes. Ou seja, ainda têm uma visão de turista. Não que as maravilhas que citei acima não sejam verdadeiras. Mas a vida em Portugal, e não me canso de falar, requer uma mudança de mindset.

Significa viver com menos coisas, mas com mais qualidade. Especialmente a elite brasileira sofre com uma vida, digamos, mais espartana para os padrões dela. Os portugueses ricos não se vestem ou se ornamentam com grifes e joias caras dos pés à cabeça. Não têm cinco empregados ou motorista para levar os filhos à escola. E, por não terem motorista e os postos não terem frentistas, vão abastecer eles mesmos os seus carros velhos a diesel.

As festas infantis não têm super-heróis nem trens voadores. E, lamento, o caminhão do lixo não para à porta da sua casa. Então, você deverá se dirigir aos contêineres da esquina, de preferência com o lixo já separado para reciclagem. Quem não entende essa realidade acaba voltando ou vai viver numa bolha, pagando caro pelas comodidades. Mas, para viver numa bolha, não precisava vir para Portugal, certo?

Conheci hoje um casal de médicos recém-chegados de São Paulo que matriculou os filhos na mesma escola em que estudam os meus. Escola normal, portuguesa, tradicional. Estavam felizes da vida, pois estão levando as crianças de bicicleta para o colégio. Mas, com aquela preocupação: será que não vão roubar as bicicletas? Só lembrei a ele: você não está no Morumbi, vida normal…



 


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