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De tão óbvias e tão repetidas, algumas frases viraram clichês: “A educação é a base para o futuro” e  “Um país que não investe em educação nunca conseguirá resolver outros problemas e não crescerá”. Por mais que tenham sido registrados avanços na edução brasileira nas últimas décadas, a defasagem em relação a outros países continua gritante. Lei de 2013 instituiu no Brasil a educação obrigatória dos 4 aos 17 anos. Assim como em Portugal e em outros países do mundo, com pequenas variações.

Mas, há vagas para todos? As condições de vida das famílias mais pobres permitem ao jovem seguir estudando sem abandonar a escola para trabalhar? O mais incrível é a lei prever sanções aos pais que não mantiverem os filhos na escola, como se a culpa fosse deles. É o famoso caso das leis que “pegam” e das leis que “não pegam”. Mas esse é um assunto para ser discutido entre especialistas.

Em Portugal, o óbvio parece funcionar. Ao contrário da maioria da Europa, aqui, ser professor da educação infantil, do ensino fundamental ou do ensino médio não tem qualquer influência no rendimento: o salário médio anual é entre 21.960 e 42.377 euros por ano. Trocando em nossos miúdos reais, entre R$ 7,7 mil e R$ 15 mil por mês. Mesmo considerando o custo de vida mais alto aqui, não se pode dizer que é um mau salário.

E assim se cumpre o primeiro clichê: o professor precisa ganhar bem, para atrair profissionais mais qualificados para a docência. Seja no ensino público ou no privado.

As escolas lusas funcionam em período integral, inclusive Portugal é um dos países da Europa com carga horária mais elevada. As crianças chegam entre 8h30 e 9h e saem por volta das 16h30 ou 17h. Quando me mudei para cá, estranhava esse horário. Achava que as crianças entravam tarde demais – eu, que nos tempos de colégio “madrugava” às 7h, no frio e na garoa paulistanos. Ao chegar o inverno, percebi fazer todo o sentido. Com os dias mais curtos, se as aulas começassem muito cedo, seria covardia com os miúdos irem para a escola no frio e com o dia escuro.

E ainda que muitos psicólogos torçam o nariz para essas longas jornadas escolares, dizendo ser necessário os pequenos terem mais tempo com a família, sinceramente, quando vou buscar os meus filhos e os vejo brincando no quintal da escola, correndo para lá e para cá, pendurando-se em árvores, totalmente sujos, sem a menor vontade de ir embora, chego à óbvia conclusão: estão felizes ali, sendo crianças em tempo integral.

E assim se cumpre o segundo clichê: quanto mais tempo na escola, melhor para as crianças e para o aprendizado"

Outro aspecto ao qual tive de me adaptar é o calendário escolar. Não há duas grandes férias/recessos como no Brasil, entre dezembro e janeiro e em julho. No final do ano, em Portugal, o recesso é curtinho, só mesmo entre Natal e Ano-Novo. As férias prolongadas são as de verão. Elas tomam um pedaço de junho, julho e agosto inteiros. Lembrando: o ano letivo começa em setembro. Como ninguém é de ferro, existem também as férias de Páscoa. Isso mesmo, não é apenas a Sexta-Feira Santa. É uma semana inteira (em algumas escolas religiosas, são duas), e, de fato, você não sabe o que fazer com as crianças infernizando dentro de casa…

Escola pública ou privada? É muito difícil para os brasileiros, cuja referência é muito ruim da escola pública e se esforçam para colocar seus filhos em uma escola privada, muitas vezes até comprometendo o orçamento familiar, mudarem o paradigma. Acredite. Escolas públicas são muito boas em Portugal e oferecem uma formação de qualidade. Os alunos saem fluentes em inglês e ainda devem optar por estudar outra língua estrangeira. Escolas privadas são interessantes se os pais quiserem oferecer aos filhos um ensino internacional ou uma formação bem específica.

Não que fluência em inglês seja um índice único de avaliação quanto ao nível de qualidade de ensino de um país. Mas, confesso: achava no Brasil meu inglês acima da média e em Portugal percebi que ele é bem “the book is on the table”.



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