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No momento em que escrevo a coluna desta semana, o euro está cotado a R$ 4,57. Quando mudei para Portugal, há menos de um ano, o euro valia R$ 3,70. Ou seja, para cada mil reais que eu transfira hoje para cá, perco 52 euros em relação a um ano atrás. Dinheiro suficiente para encher um tanque de combustível e rodar 700 km num carro a diesel. Essa é uma realidade com a qual os brasileiros que dependem do dinheiro vindo do Brasil têm de lidar. Fora as taxas de remessa e IOFs da vida que se tem de pagar.

Aposentados que queiram receber a suada e merecida aposentadoria em Portugal (na verdade em qualquer país do exterior) deixam 25% para o Leão brasileiro. Não importa se ganham um ou cem salários mínimos. Como se os aposentados estivessem praticando evasão de divisas do país, quando na verdade só querem ter um pouco de paz na última etapa da vida longe de um Estado que oferece pouco em troca do muito que arrecada. Enfim, mas esse é só um desabafo de quem mora em um país cujos serviços públicos funcionam e as pessoas só pagam plano de saúde porque querem ter um conforto a mais, não porque precisam.

Apesar de o dinheiro de plástico ser uma realidade, portugueses frequentemente pagam as compras com dinheiro vivo. Que sacam em caixas eletrônicos (chamados de Multibanco) em qualquer esquina. No meio da rua, digitando uma senha de 4 dígitos e pronto. Sem ficar olhando para os lados, sem cabines blindadas, sem precisar confirmar o nome da mãe, do cachorro de estimação ou colher a digital ou escanear a íris.

Moedas não ficam no cofrinho, naquele potinho na cozinha ou dentro das gavetas. Moeda é para ser usada, afinal, tem valor. Com uma de dois euros, mais 4 moedinhas de 20 cêntimos, compro um pacote de 6 litros de leite. E fazendo compras a partir de 15 euros no supermercado, tenho descontos no combustível.

As marcas brancas, diferente do Brasil, não possuem qualidade inferior em relação às marcas mais conhecidas. Eu compro sem medo, economizo e não me arrependo. (E em determinado dia da semana, essas marcas ainda têm um desconto extra de 10%). Olha só, nunca fui um pão-duro, mas em Portugal aprendemos a valorizar o dinheiro, sem esbanjamento.

Outra coisa: não há em Portugal a possibilidade de se ver uma promoção do tipo “divida em 12 vezes sem juros no cartão de crédito”. O cartão de crédito aqui existe para o conforto de pagar as compras todas de uma vez só, além da possibilidade de acumular milhas. Crediários, quando há, são das próprias lojas. Não há essa política do consumismo e do endividamento pessoal, tão comum no Brasil, que com os juros elevadíssimos, leva famílias à falência, com uma TV Ultra HD de 55 polegadas na sala, mas sem comida na geladeira.

O que fica disso tudo é uma percepção de um país menos orientado para o consumo, como eu já falei aqui em outras oportunidades. Até porque, no contexto europeu, Portugal é um país mais pobre, que oferece salários menores. Difícil dizer se é herança das Grandes Guerras Mundiais, que, ao gerar uma escassez colossal, transformou a forma como as pessoas passaram a encarar a vida. Os europeus vivem dentro de suas possibilidades. Não têm dois celulares, nem dois carros. Reciclam, guardam, trocam, poupam. Um bom exemplo acontece na escola das crianças, que estimula que os pais vendam os uniformes em bom estado dos filhos que cresceram para os pais de crianças menores.



 


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