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O grande poeta português Fernando Pessoa, por meio de seu heterônimo Bernardo Soares, dizia que “minha pátria é a língua portuguesa”. O nosso genial Caetano Veloso, décadas depois, cantou: “A língua é a minha pátria / E eu não tenho pátria, tenho mátria / E quero frátria”. 

De um lado ou de outro do Atlântico, o mesmo sentimento em relação à nossa língua. Por que parece, então, que às vezes estamos a ouvir um idioma estrangeiro quando nós, brasileiros, nos encontramos em solo português? Séculos e milhares de quilômetros de distância construíram barreiras e praticamente dialetos diferentes lá e cá.

O pouco interesse cultural que o brasileiro comum sempre teve em relação a Portugal ajudou a construir esse abismo. Isso, somado ao fato de que línguas são organismos vivos, foi afastando o português brasileiro do português de Portugal. Fenômeno que não se percebe tão forte em relação ao português de Angola ou ao de Moçambique, se comparados ao falado nas ruas de Lisboa ou do Porto, por exemplo. E não é simplesmente uma questão de sotaque. É vocabulário, são os pronomes de tratamento, a construção das frases.

Quando estudava conjugação verbal nos bancos escolares, não entendia muito bem a importância de conjugar as segundas pessoas (o “tu” e o “vós”) se não as usávamos no dia a dia. Hoje eu entendo: para conversar com o português ou para compreendê-lo melhor. Não é o “você falou” ou ainda o “tu falou”, como se diz em algumas regiões do Brasil. Em Portugal, é o castiço “tu falaste”.

Está vendo como foi útil não fugir das aulas de gramática? O “você” é muito brasileiro, evolução do “vosmecê”, que veio do “Vossa Mercê”.

Outra construção 100% brasileira é o gerúndio. O português nunca está cantando. Ele está sempre a cantar.

Mas fique tranquilo, que os portugueses sempre entendem o que falamos. Não é preciso tirar onda e tentar falar à portuguesa. Soa meio ridículo, igualzinho quando nos achamos experts em espanhol e arriscamos um portunhol tosco. Não seria descabido criar um curso de português de Portugal para brasileiros, assim como existem cursos de português para estrangeiros.

Talvez por influência imensa das novelas brasileiras que ainda fazem sucesso aqui e do repertório monumental de músicas brasileiras, os portugueses se habituaram com a cadência mais lenta e musical do português brasileiro e compreendem tudo o que falamos. Quer dizer, quase tudo. Há diferenças no vocabulário em quase todas as áreas, dos nomes das frutas aos nomes das ferramentas, das gírias aos tipos de roupas.

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“Clementina” é mexerica, “berbequim” é furadeira, “fixe” ou “giro” é legal ou bacana, “camisola” é camiseta, e “cueca” é cueca mesmo – ou calcinha, para mulheres! Bumbum é “rabo”, injeção é “pica”. “Levar uma injeção no bumbum” traduzido para o português de Portugal só fica obsceno no Brasil. Há uma lista enorme de termos cujas versões lusitanas não têm nada a ver com as brasileiras, e aqui, na coluna, sempre aparece alguma coisa.

Quando não são os termos completamente diferentes, é a pronúncia esquisita de algumas palavras que ferem os nossos ouvidos. Pizza, por exemplo, escreve-se do mesmo jeito. Mas se pronuncia “piza” em Portugal. A primeira vez que ouvi, achei que a pessoa, um sujeito instruído, estava de brincadeira. Cinco aqui vira “xinco” na pronúncia.

Não sei por que os portugueses adoram a expressão “fazer sentido”. “Não faz sentido o que você está a dizer”, em que a pronúncia do “faz sentido” fica quase um “faixintido”. Com o tempo, a gente acaba incorporando ao nosso dia a dia expressões bastante lusitanas, como atender ao telefone falando “tô” em vez de “alô” ou pedindo um “se faz favor” (“xifaixfavor”) em vez de “por favor”.

Como dizia Caetano, “gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões”.



 


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