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Oficialmente somos 81 mil brasileiros vivendo em Portugal, a maior comunidade estrangeira no país, 20% dos gringos do local. Porém, a considerar o grande contingente de ilegais em território luso, eu arriscaria dizer que esse número deve ser o dobro. Por onde andamos, esbarramos em brasileiros. Há uma percepção de sermos muitos por aqui. Agora, se você somar o nosso caráter espalhafatoso, eloquente, de gestos largos, grandes gargalhadas e voz alta, parece haver muitos mais. Somos bem espaçosos.

Houve nos últimos tempos diferentes ondas de brasileiros em direção a Portugal. Primeiro, vieram migrantes para trabalhar em empregos mais simples, que não exigiam um elevado grau de instrução. Ainda hoje, brasileiros com uma certa especialização continuam a vir. Instaladores de TV a cabo e internet são nossos conterrâneos. Experimente entrar em um salão de beleza e não encontrar brasileiros e brasileiras trabalhando. Em alguns salões, somos maioria, quando não a quase totalidade. Tudo bem que cortar o meu cabelo não requer muita habilidade, mas todas as vezes o barbeiro era brazuca. Então, é inevitável partilhar as histórias de vida e entender o que nos trouxe para cá.

Há quem aqui está há uma década, montou empresa e hoje emprega os compatriotas recém-chegados. É bacana ouvir esses relatos de sucesso. Num país recheado de Nunos, Manueis, Joaquins, Antónios, Marias, Saras, Ritas e Joanas, não tenha dúvida que um salão ostentando na fachada o nome Fabiu’s ou Karlene só pode ser de brasileiros, tão afeiçoados aos apóstrofos e às letras K, W e Y. Mesmo na terrinha, não perdemos essa influência norte-americana.

Agora, também é inquestionável que você encontrará nesses lugares um time empenhado e dedicado, made in Brazil. O brasileiro se vira, não vai morrer de fome. É gente que não se importa de ficar depois das seis da tarde no trabalho e ainda fará uns bicos no fim de semana ou à noite para aumentar a renda. Que o digam os motoristas de Uber em Portugal, nicho de brazucas (e outros migrantes também).

Seja nas cadeiras dos salões ou nos bancos do Uber, as conversas com os brasileiros versam sobre os mesmos temas. Não, ninguém fala sobre futebol nem sobre novela. “Há quanto tempo você está aqui em Portugal?” “Está gostando?”. E em algum momento o rumo da prosa inevitavelmente se volta para a situação no Brasil. Poupo o leitor de entrar nesses detalhes, até porque as conversas não devem ser muito diferentes do que rola por aí. Não conseguimos nos desligar dos nossos problemas.

Confesso que às vezes eu adoraria falar sobre a crise do Sporting, a greve dos comboios ou mesmo sobre como os portugueses insistem em não catar o cocô dos seus cães nas ruas. Não tem jeito. É ímã. As conversas recaem sobre a nossa crise generalizada e a conclusão à qual se chega é que cada vez mais brasileiros querem sair do país e não vão caber em Portugal… Triste, mas verdadeiro.

Os processos de autorização de visto de residência têm demorado horrores devido à sobrecarga nos consulados portugueses no Brasil. Até uma coisa simples, como trocar a carteira de motorista brasileira pela carta de condução portuguesa, processo que costumava demorar dois meses no máximo, tem demorado seis meses ou mais, pois o processo vai para o Brasil para análise e depois volta para Portugal"

Depois dos cabeleireiros, garçons, balconistas, instaladores de TV a cabo e congêneres, a horda de invasores mais recente foi a dos brasileiros endinheirados, que mudaram seu objeto de desejo: trocaram a Miami do Trump pela Lisboa do simpático e carismático presidente popstar Marcelo.

Infelizmente, alguns desses brasileiros nos envergonham com a arrogância e o jeito de “você-sabe-com-quem-está-falando?”. Querendo que o país se adapte a eles e não o contrário. Não vão conseguir. Portugal vai continuar ali, no cantinho da Península Ibérica, um país simples e acolhedor, esquecido pelos terroristas, o segredo mais bem guardado da Europa.



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