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Dias de chuva costumam nos deixar mais nostálgicos. Apesar de Portugal ter mais de 300 dias de sol por ano, a chuva, junto ao frio, costuma dar o ar da graça no inverno. Então, nesses momentos cinzentos, a gente se põe a lembrar das coisas boas do Brasil que ficaram para trás. Meu pai sempre me dizia que o tempo costuma apagar as más lembranças e deixar apenas as boas. Ele falava isso em relação aos amores passados, mas se aplica a tudo. De fato, se a gente não tem contato com as notícias que vêm daí, fica na memória apenas o Brasil tropical, caloroso e de natureza rica.

Faz falta em Portugal a profusão de frutas e sabores. Jabuticaba e manga que a gente pega ao pé das árvores. Jaca, baru, seriguela, mangaba, pequi. Banana-ouro, tão doce. Feijoada de verdade, com tudo o que tem direito. Churrasco de domingo na casa dos amigos, regado a caipirinha, cerveja e piscina, coroado com o futebol na TV no final da tarde. Dá saudade até do carrinho de cachorro quente na entrada da superquadra.

Faz falta esse humor brasileiro tão sacana e tão criativo, capaz de fazer piada das coisas mais sérias e mais prosaicas. Quer um exemplo? Quantas mensagens você não recebeu brincando com a cirurgia do Neymar nos seus grupos de WhatsApp? Aliás, grupo de WhatsApp é algo tipicamente brasileiro. Tem o grupo dos amigos do futebol, o grupo dos colegas de trabalho para falar mal do chefe, o grupo de mães da escola, o grupo dos ex-colegas do antigo 1º grau, do 2º grau, da faculdade e por aí vai.

Em Portugal, faço parte de um grupo de WhatsApp de mais de 100 empresários e profissionais onde moro. Só homens. Um prato cheio para rolar só bobagens e piadinhas. Pois um belo dia, alguém postou uma mensagem mais apimentada (um brasileiro, é claro!) e quase foi banido do grupo!

É bem chato isso. Faz falta o palavrão, que usamos aos montes no Brasil, às vezes até como um elogio. Em Portugal, as pessoas são comedidas e tento ser o mínimo desbocado possível.

Faz falta ouvir música brasileira no rádio do carro, na propaganda da TV, nas ruas e praças. Uma música que, em todas as suas vertentes genuinamente nacionais, é incomparavelmente mais rica. Choro, chorinho, bossa-nova, música caipira, repente, frevo, samba, pagode, maracatu, MPB e outros. Por mais que a tecnologia nos permita ouvir música brasileira, russa ou islandesa 24 horas em qualquer lugar, é uma sensação diferente ouvi-la quando se está exilado. É uma pontinha de orgulho mesmo, como se dissesse: “Olha, foi a gente que fez!”

E isso me puxa uma outra sensação de que tenho saudade: andar pelas ruas como se eu fosse nativo. Porque, por mais que exista uma identidade enorme entre os dois países, acho que sempre serei um estrangeiro aqui, tão gringo como um sueco ou um chinês. No Brasil, sempre serei aceito e compreendido, colo de mãe. Em Portugal, por mais que exista um sentimento de admiração dos portugueses pelos brasileiros, não somos unanimidade.

Há quase 200 anos, um jovem brasileiro chamado Gonçalves Dias veio estudar Direito em Coimbra e compôs alguns dos versos mais célebres da literatura romântica brasileira: “Minha terra tem palmeiras/Onde canta o sabiá”. A sua Canção do Exílio foi parodiada diversas vezes ao longo desses dois séculos e alguns dos seus versos fazem parte até do Hino Nacional Brasileiro. Nunca fui um fã dos poetas românticos, mas, hoje, entendo perfeitamente o que Gonçalves Dias sentiu. Parafraseando o poeta, não permita Deus que eu morra sem que eu volte para lá, nem que seja para uma visitinha rápida.



 


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