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Mais do que infame episódio para o anedotário do obscurantismo nacional, o fechamento da exposição “Queermuseu”, no Santander Cultural de Porto Alegre, marca oficialmente o início de uma cruzada ultraconservadora contra as artes visuais brasileiras.

Não há coincidências. Em questão de dias, seguiram-se casos de abuso de poder e de tentativa de intimidação. Uma obra da artista mineira Ropre foi apreendida no Museu de Arte Contemporânea de Campo Grande, a mando de deputados estaduais do Mato Grosso do Sul. E a mostra coletiva “Não Matarás”, aqui em Brasília, no Museu Nacional Honestino Guimarães, recebeu a inusual visita de deputados federais que trabalham ali adiante na Praça dos Três Poderes.

Confira as obras que foram acusadas de incentivar a pedofilia e zoofilia:

Como já está devidamente registrado por diversos órgãos de imprensa, diferentes obras de arte foram acusadas de crimes como apologia à pedofilia, incentivo à zoofilia, ofensa à religiosidade e barbaridades afins.

Ora. Cabe perguntar: ignorância ou má fé? Muito a propósito, ambas se confundem. E assim o Caso Santander se revela bastante útil para o entendimento de certas distorções da vida cultural brasileira — e, em última instância, para o entendimento do próprio país.

Pobre é o país que confia na iniciativa particular de grandes empresas para fomentar, exibir, fazer circular arte e cultura. Há mais de duas décadas, o poder público brasileiro lança mão de renúncia fiscal para terceirizar uma larga escala de seu financiamento cultural, que assim passa a tocar aos departamentos de marketing da iniciativa privada, podendo eles escolher qual proposta, qual projeto, quais artistas apoiar.

Lembre disso a cada filme duvidoso que entra em cartaz, de “Lula, O Filho do Brasil” a “Polícia Federal, a Lei É para Todos”. Além de frutos francamente oportunistas, essa dinâmica gera também patrocínios completamente desvinculados do cotidiano da prática, do interesse e do mérito artísticos.

Patrocina-se por marketing, então também abandona-se por marketing. Eis a única explicação para o Banco Santander ter embargado “Queermuseu”, cedendo às pressões de um grupo exaltado da sociedade. Um grupo minoritário representando interesses pouco democráticos, alimentado por antecipações eleitoreiras e movido por campanhas difamatórias nas redes sociais. Um grupo contaminado por falsas notícias à respeito da exposição, por mentiras criadas para promover o ódio.

E tanto essa lógica ineficiente de política cultural quanto essa incompreensão do papel da arte na sociedade deitam raízes um tantinho mais fundo. Quando uma mostra que se propõe a ser um libelo às diversidades se torna vítima da intolerância de cidadãos que a condenam sem nem a terem visto, percebe-se que a própria noção de arte está a pique.

A arte não deve ser bela. A arte não deve ser funcional. A arte não deve trazer mensagens edificantes. Esses são nortes caros à propaganda e à publicidade. A arte, já fazem alguns séculos, se libertou de tais normas e aporrinhações, embora muitos conservadores ainda não tenham se dado conta. A arte moderna, muitas vezes, encontra sua força justamente na ambiguidade, na polissemia, na abertura para outros entendimentos. Encontra sua força no diálogo contigo, prezado espectador.

Diálogo muito truncado, bem verdade, porque tantas vezes ao público faltam os instrumentos e os entendimentos para completar a intenção do artista. Falta repertório. Mas esse interesse pode ser despertado e esse conhecimento pode ser reunido de várias formas. No estudo da história da arte, por exemplo. Ou nas conversas promovidas por museus e galerias. Ou mesmo aqui nesta coluna, nos espaços na imprensa que ainda se dedicam ao assunto. E, principalmente, no contato visual, na visitação de mostras, na visitação cotidiana e desarmada. No insubstituível corpo a corpo entre o objeto de arte e você.

Enquanto uma parcela ruidosa da sociedade brasileira se agarrar a noções pré-fabricadas sobre o que pode e o que não pode ser dito pelos artistas, o que deve e o que não deve ser mostrado pelos artistas, esse diálogo vai ficando mais e mais distante. Se tornará um diálogo de surdos que mal leem, mal veem.

Quando as imagens se perdem, resta o vácuo de ideias. A quem interessa o vácuo?



santander culturalCaso Santander
 


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