Um estudo em laranja: o encontro de Ralph Gehre e Gustavo Silvamaral

A exposição ocupa uma vitrine pulsante no meio de um bloco comercial da 412 Norte

Bernardo Scartezini/ especial para o MetropolesBernardo Scartezini/ especial para o Metropoles

atualizado 20/04/2018 20:43

Um pontinho colorido entre a farmácia e o salão de beleza. Uma vitrine pulsando no meio de um bloco comercial da 412 Norte. Difícil não localizar a pequenina deCurators até 29 de abril, que está assim, estalando, graças à Laranja C.I. 15985.

A obra marca o encontro entre Gustavo Silvamaral e Ralph Gehre. Reunidos sob iniciativa de Gisel Carriconde Azevedo, a artista visual e proprietária da deCurators. Ela promove o ciclo Curare ao longo desta temporada 2018. Uma série de parcerias entre realizadores e curadores, convidados a ocupar a vitrine e a sala interna da galeria.

Gustavo & Ralph abrem os trabalhos. O primeiro como realizador. O segundo, desta feita, como curador. Nascido em 1995, Gustavo Silvamaral estuda no Instituto de Artes da Universidade de Brasília e desenvolve trabalho de pintura em torno da materialidade. Nascido em 1952, Ralph Gehre cursou Desenho e Plástica e Arquitetura e Urbanismo na UnB na segunda metade da década de 1970 para, desde então, manter atividade regular tanto como artista quanto como curador.

Os dois se conheciam apenas socialmente quando Gisel os juntou – oficialmente – em janeiro para este trabalho. Ralph é figura de destaque na cena brasiliense e, claro, Gustavo já percebera os tantos amigos em comum. “Foi muito bafo quando a Gisel mandou o convite. Eu sabia que Ralph conversava muito sobre as coisas que eu pensava e sabia que, com ele, eu seguiria adiante.”

Ralph Gehre também sabia bem o que encontraria. “Somos de gerações muito afastadas. Mais de quarenta anos nos separam. Posso ser avô deste menino. Mas, despeito dessa distância, já havia me dado conta de que esta geração resgata referências plásticas, estéticas, filosóficas, antropológicas muito caras à minha geração. Há uma proximidade muito grande, real e objetiva, na conversa, no que o Gustavo fala, no seu apreço, no seu jeito de encaminhar o pensamento. Chega ao absurdo de nós nos coincidirmos em gestos.”

Os dois contam que, certa feita, num dos encontros frequentes ao longo desta parceria que os levou a Laranja C.I. 15985, Gustavo abriu seu caderninho de esboços mostrando uma ideia que tinha acabado de lhe ocorrer. Ralph foi ali em sua estante, puxou uma antiga caderneta de anos atrás, e mostrou escrito o mesmo pensamento.

As conversas ao longo de janeiro, fevereiro e março, lembra Gustavo, partiam da pintura e tomavam mil outros rumos, às vezes mais pareciam terapia. Os encontros quase sempre se davam na casa de Ralph, na 709 Sul, entre estantes cheias de livros. “Quando eu perguntava sobre um determinado livro, ele ficava doido por dez minutos, revirando tudo, e não achava, mas achava outro que tinha a ver. Depois ficava sem dormir e de noite me mandava uma mensagem dizendo que enfim tinha encontrado.”

Ralph Gehre, num dos primeiros encontros, surgiu com a estratégia de adotarem um caderninho em comum. Pareceu-lhe natural. Um bloco de anotações que ficasse ora com um, ora com outro, em que ambos pudessem compartilhar as ideias que lhe ocorressem naquele dia, mesmo que pouco ou nada tivessem a ver com o trabalho em si. E que, em seguida, o outro pudesse escrever por cima, anotar, rabiscar, desenhar, interferir.

“A conversa, o encontro, o livro, tudo isso é um contorno”, explica Ralph Gehre, folheando as páginas do tal caderno, que está em exibição na sala interna da deCurators. “Tudo isso faz parte do processo, mas nada disso é a coisa em si, o nosso compromisso com a galeria não era nada disso. Como chegar lá?”

Ralph Gehre se perguntava – como chegar lá? – de uma maneira muito mais do que meramente retórica. Chegou mesmo a, certo dia, ligar para Gisel só para ter certeza de como deveria agir. Estava se sentindo como uma espécie supervisor do artista. Gisel esclareceu que seria o revés disso. Como deCurators é um espaço para microcuradorias, ela pretendia que o trabalho a ser exibido partisse da curadoria.

Pensando na dinâmica encontrada ao longo do processo, Ralph a compara com um gênero de pintura muito comum na Inglaterra do século 17, a chamada conversation piece. Algo como “cena de conversa”. Quadros que retratam pequenos grupos de aristocratas a conversar, num jardim sob uma árvore, numa sala à frente de uma lareira, eventualmente segurando um livro. Ralph lembra que o cineasta italiano Luchino Visconti deu esse título a um de seus últimos filmes.

Uma conversa na qual Ralph se engajou com facilidade graças à “verve” de Gustavo Silvamaral. De fato, ele diz, em momento algum faltaram ideias para o pintor sobre como trabalhar com o espaço tridimensional de uma vitrine – estava diante da oportunidade de fazer uma instalação a partir de uma pintura. Era justamente seu intento seguir pesquisando sobre a materialidade, e assim se somando a uma vertente da arte contemporânea que pode ser entendida tanto como pintura de campo expandido, quanto como arte ambiental.

Seria uma progressão poética das intenções que ele apresentara em dezembro dentro do projeto Fuga, realizado no ateliê da artista Valéria Pena-Costa em parceria com a Alfinete Galeria. Naquele momento, ele ocupara o menor dos quartos da casa com Vermelho Segurança. Todo o ambiente, as quatro paredes, as janelas, o chão e o forro foram pintados da cor que emprestou seu nome ao trabalho. Num dos cantos, um ventilador foi deitado no chão de tal maneira que soprasse para cima e assim balançasse uma biruta de plástico nele acoplada, emprestando movimento àquele ambiente rigorosamente monocromático.

Outro exercício que levou Gustavo Silvamaral à obra Laranja C.I. 15985 vem se dando ao longo de uma série de pinturas. Quatro telas desse mote foram levadas para a deCurators para dar conta dessa etapa de criação. Assim como o caderno de Gustavo & Ralph ali em exibição, também pareceu lógico ao curador mostrar esse aspecto do mesmo pensamento que levou a Laranja C.I. 15985.

Gustavo explica que tão peculiar prática nasceu para ele de um exercício de esticar telas sobre os chassis de madeira e comparar superfícies, criando relações cromáticas e sequenciais. Entretido nessa atividade ao mesmo tempo braçal e perceptiva, ele se deu conta de que o plástico transparente também poderia lhe servir de suporte para pigmento. Passo seguinte, tratou de “ensanduichar” pó de tinta entre pedaços de plástico devidamente presos no chassis.

De tal forma que, como nota Ralph, a natureza física da pintura se torna em tudo visível: o prego, o chassis de madeira, a dobra do plástico, o pó de tinta – mais a sombra de tudo isso sobre a parede branca. Ao mesmo tempo, a obra continua sendo uma pintura, pois continua imagética e expressiva.

Tudo se torna visível nessa série de pinturas – e também se torna instável. Pois o pó de tinta se movimenta nos microvãos entre os plásticos, sofrendo ação da gravidade. Assim como o próprio plástico se contrai e se expande sob a temperatura do ambiente.

Algumas questões de materiais, portanto, já se antecipavam para Gustavo Silvamaral mesmo no aparente conforto de seu ateliê. Outras surgiram apenas na hora de ligar o ventilador para Vermelho Segurança e verificar que o balanço da biruta naquela sala não seria tão vertical quanto ele imaginava. Desta vez, na deCurators, a realidade novamente se impôs.

Gustavo novamente quis trabalhar com o ar. Apela a seus sentidos a noção de algo que tem volume, que se movimenta e que contamina uma cena, mas que permanece invisível. Para Laranja C.I. 15985, ele oscilou entre adotar exaustores ou ventiladores. Mas descobriu na forma de um aparelho circulador de ar, emprestado pela manicure do salão de beleza que funciona ao lado da galeria, o objeto que melhor se encaixou em sua vitrine alaranjada.

Os primeiros testes foram feitos com confete, para que Gustavo pudessem visualizar o movimento que o ar assumiria dentro daquela vitrine fechada. Satisfeito, ele pintou as paredes, aprumou as luzes brancas, instalou o ventilador e semeou montinhos de pigmento de tinta no chão. A expectativa era de que o pó fosse soprado da mesma forma que acontecera com os papeizinhos de confete.

“Na minha presunção de pintor, achei que eu ia dominar o espaço. Mas quando chega a hora de ligar na tomada, é o trabalho que vai me dizer como se comporta. E descobri que pó de tinta, num ambiente fechado assim, não voa.”

A obra se impôs para Gustavo Silvamaral de uma maneira que ele não esperava, não tinha antecipado. De certa forma, tornou-se outra. Revelou-se outra. Porque nem Ralph Gehre, que acompanhara todo o processo, muitas vezes servindo para alertar a várias questões práticas, como a presença daqueles estreitos vãos entre os vidros da vitrine, antecipara a tão solene e definitiva recusa do pó de tinta em se deixar levar pelo ar.

E os montinhos de pó Laranja C.I. 15985, portanto, se tornaram assim parte daquela paisagem. Mesmo que ignorados por boa parte dos espectadores, porque minúsculos e tão discretos ali no chão da vitrine, eles ali permanecem ainda agora por vontade própria, alheia aos demais envolvidos.

“Quando falamos sobre artes plásticas temos que entender do que estamos falando”, elabora Ralph Gehre, “porque esse termo ‘plástico’ aí se refere a uma maleabilidade e a uma instabilidade própria aos materiais. A tinta é aquosa ou oleosa. Ela pinga ou derrama. Há uma dinâmica própria a cada material. E a pintura é uma negociação com essa plástica.”

Bernardo Scartezini/ Especial para Metropoles
Texto de Ralph Gehre na vitrine da deCurators

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