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Gê Orthof está a participar de duas exposições ao mesmo tempo. Numa delas, Pequenas Escalas, entrando em seus últimos dias na Galeria Fayga Ostrower, o artista retorna com um par de obras de seu repertório. Enquanto na outra, Brasília Extemporânea, seguindo em cartaz na Casa Niemeyer até fevereiro, ele apresenta uma instalação especialmente pensada para aquele lugar.

De modo que, duas mostras, duas propostas, dois processos de montagem e dois envolvimentos diferentes. Pareceu adequado buscar Gê Orthof para contar à coluna Plástica um pouco sobre o que cada uma dessas exposições implica para o artista – o quanto ele tem que criar, o quanto ele tem que recriar.

“Não sou um artista da projética, sou um artista da montagem”, analisa Gê Orthof, engatilhando nossa conversa enquanto seu sanduíche de guacamole esfria à mesa do café Clandestino. “As coisas vão aparecendo para mim enquanto vou montando, elas se revelam durante o processo. Quanto mais tempo tenho de intimidade com uma obra, melhor vou entendendo, as ideias vão clareando.”

Nesse sentido, foi uma boa ter recebido o convite do curador Ivar Reinaldim para que remontasse duas obras exibidas à época em que venceu o Prêmio Marcantonio Vilaça de 2015 e saiu em itinerância, no ano seguinte, com a mostra dos contemplados, ao lado de artistas como Berna Reale e o Grupo EmpreZa. Oportunidade para Gê voltar ao que tinha feito.

“É um jogo que inventei para mim mesmo, um jogo de prazer. Porque eu não aguentaria montar e remontar uma obra de uma mesma forma sempre, seguindo um mesmo mapinha.”

 

Mar!Amar (2015) é uma das duas obras que participaram do Marcantônio Vilaça e agora estão na Galeria Fayga Ostrower da Funarte para Pequenas Escalas. Ela havia sido apresentada ao público brasiliense em versão reduzida, devido ao espaço físico em que a exposição original se desenrolou, na antiga sede do Tribunal de Contas da União. E foi crescendo, lembra Gê, à medida em que circulou com a mostra de 2016 e encontrou salas maiores – do Museu de Arte Contemporânea, da Universidade de São Paulo, até o Palácio das Artes, em Belo Horizonte.

Agora na Funarte, Mar!Amar pôde se espalhar sobre o chão, se derramar. Gê se sentindo muito à vontade numa mostra em que, como são poucas as obras penduradas nas paredes, o espectador é levado a olhar para baixo, se agachar, se aproximar fisicamente do que acontece no solo.

A aproximação de Gê Orthof com Mar!Amar é da ordem afetiva. Ali ele guarda um tanto da história de sua família. Desde a Áustria, representada pelo mapa aberto nas páginas em que está o Rio Danúbio, terra de sua avó Gertrud, até a Amazônia, representada em outro mapa, o Rio Negro e o interior do Pará, onde seu sobrinho, o engenheiro florestal Francisco, trabalhou por anos junto à Funai.

“Quis contar um pouco sobre essa errância, esse caminhar eterno, estimulado pela trajetória particular de minha família, mas que é também a história dos povos sobre a Terra, sempre perambulando em função de uma guerra, em busca de uma vida melhor, atrás de amor, de dinheiro ou de qualquer outro desejo. Isso se esparrama e vai tendo seus afluentes e também suas barragens, seus impedimentos. Está tudo ali, contado e oculto, como acontece sempre em meu trabalho. Há pistas, textos, as imagens, os mapas e os atlas, mas boa parte ainda é um mistério. Como na hora em que você entra num barco e não sabe exatamente qual viagem está começando, nunca. Você tem apenas uma ideia, um desejo e a certeza de que vai sair tudo errado.”

 

Dois mundos, duas civilizações. Os Himalaia: Ele que Não Subia em Árvores (2015), a outra obra do Marcantônio Vilaça revisitada em Pequenas Escalas, foi criada na mesma época e traz semelhante encontro entre autobiografia e geopolítica – e mais uns tantos livros.

Em ambas as instalações, aponta o próprio Gê, os livros estão inacessíveis, em funções desviadas, não se pode passar suas páginas – como a indicar que as histórias que eles contam vieram de outro lugar, os antecedem. E esta história em particular tem como um de seus personagens o venezuelano José Antonio Delgado Sucre. Ele causou comoção em ambos os mundos por ter se tornado o primeiro montanhista sul-americano a conquistar o Evereste.

Aqui na Funarte, o Himalaia de Gê Orthof brilha uma mortiça luz branca, se equilibra em frágeis estruturas de madeira de balsa, se escora sobre antigas fotografias e se desvenda numa cordilheira de livros como Tintim no Tibete (1959), a aventura em quadrinhos de Hergé. Gê conta que, assim como Sucre, ele próprio também foi um pioneiro. Quando seus pais fugiram do golpe militar e se exilaram em Paris, ele foi a primeira criança sul-americana a estudar no seu colégio. E aprendeu francês lendo Tintim no Tibete com a professora Fabienne.

Era o ano de 1967. De certa forma, então, se tomarmos a professora Fabienne como o ponto de partida para essa escalada, Os Himalaia é uma instalação que levou meio século para acontecer. “As ideias ficam depurando em algum lugar e estranhamente se conectando até que objetos chegam, os livros chegam, mais e mais histórias chegam, e um trabalho passa a existir.”

Hoje pertencente ao acervo do Museu Niemeyer, de Curitiba, Os Himalaia ainda não havia sido apresentado ao público brasiliense. Daqui segue, com o resto de Pequenas Escalas, para Manaus, onde fica em cartaz no Centro de Artes Visuais Galeria do Largo.

 

Na mesma época em que estava recuperando essas trajetórias para voltar a emprestar sentido para as duas obras, naquelas semanas entre setembro e outubro, Gê Orthof começava do zero um site specific sob encomenda da curadora Ana Avelar para a coletiva Brasília Extemporânea.

Dentro do projeto de ocupar com arte todos os cômodos e recônditos da Casa Niemeyer, a Gê tocou um ponto nobre. Percorrendo o estreito corredor em toda sua extensão, o visitante desce três ou quatro degraus antes de atingir a suíte principal da residência.

Dentro da suíte, um ângulo reto e uma estreita passagem separam a sala do quarto. Do lado oposto do aposento, uma janela inteiriça de vidro, de fora a fora, varre o cômodo com a luminosidade natural. Tanta luz ofuscou as ideias de Gê por dois ou três dias. Ele chegou a considerar outros pontos da casa, quase pediu para mudar de lugar, mas por fim aceitou – e assumiu toda aquela luz para erguer opodernãopode.

“Este é um trabalho num marco arquitetônico. E uma casa que de certa forma tem uma arquitetura antiniemeyer. Fiquei pensando então na morada do íntimo, como este lugar onde eu estava é diferente dos palácios. Inventei para mim que aquele era o quarto dele, bem possível que tivesse sido. Pensei em Niemeyer e num comunismo que nunca existiu, numa utopia que nunca existiu. Pensei na sua arquitetura, toda de concreto, grandiosa, para fazer então casinhas de papel que são o oposto e que, ao mesmo tempo, têm a brancura, a leveza e a singeleza que são a marca dele. No fundo, este poderia ser um sonho que ele sonhou ali dentro.”

Trata-se de um trabalho sobre a fragilidade do poder. Apesar da delicadeza dos materiais empregados e da poética, o autor enxerga em sua obra um tanto de violência. “Enquanto trabalhava nela, estava atordoado com as eleições e nossos pesadelos voltando todos de novo.”

Durante a noite, a instalação se torna mais tênue, mais fugidia, em papel e linha, conta Gê Orthof. Durante o dia, no contraluz, é preciso ajustar a vista para enxergar o que se passa. Os fios atravessando o espaço de uma parede à parede oposta, como as linhas de uma partitura, mas também servindo como cerca, mantendo o observador afastado, encurralado. Não se pode chegar mais perto dos diminutos objetos espalhados pelo chão, não se pode adentrar a obra. Não se pode alcançar o jardim lá fora, visível através da janela – e inatingível a não ser pelo olhar.

Silenciosas e dependuradas num dos fios, imagens do Museu Nacional a arder em chamas.

Bernardo Scartezini/Especial para o Metrópoles

Detalhe da instalação Mar!Amar



 


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