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Artista brasiliense que atualmente faz carreira internacional a partir de Nova York, Fernando Carpaneda está em cartaz com desenhos e esculturas de recente extração na mostra Homem Objeto. O conjunto pode ser visitado até 15 de abril, apenas sob agendamento, na XXX Arte Contemporânea, galeria que o colecionador e marchand Rogério Carvalho mantém há um par de anos no Condomínio Verde, Jardim Botânico.

Carvalho representa Carpaneda com exclusividade na cidade e, numa parceria com o curador Felipe Areda, professor da disciplina Pensamento LGBT na Universidade de Brasília, organizou esta exposição que serve como uma tomada de pulso do momento atual da produção do artista, que há quase 20 anos vem se dedicando a questões sobre corpo e sexualidade.

Os desenhos, no entanto, surgiram apenas recentemente na obra de Carpaneda, conta Rogério Carvalho. Funcionando a princípio como estudos. Seriam esboços para as pinturas de grande porte que o artista desenvolve em tinta acrílica sobre tela. Porém, como se percebe aqui na XXX, os desenhos em grafite sobre papel acabaram por ganhar vida própria – e interesse próprio – ao equilibrarem a linearidade do desenho com manchas cromáticas em aguadas que remetem a um gestual da pintura.

 

Semelhantes manchas de cor aparecem de forma ainda mais ostensiva numa recente série de esculturas de pequeno porte, todas medindo entre dez e doze centímetros cúbicos. A ideia desse formato partiu de Rogério Carvalho porque, entre outros motivos, assim ficaria mais simples e menos dispendioso despachar as peças, devidamente enroladas e protegidas em plástico-bolha numa única caixa, dos Estados Unidos para o Brasil.

Nessas figuras moldadas em argila sobre base de madeira, Fernando Carpaneda de certa forma reencontra uma parte de sua vivência pessoal, passada dentro do movimento punk. Para arrematá-las, ele utiliza de materiais biológicos: seus próprios fios de cabelo, seu próprio sangue misturado a pigmento.

Essa série de esculturas empresta seu título à exposição, Homem Objeto, e esteve exposta no Seattle Erotic Art Festival de 2017, do qual Carpaneda participou na condição de artista convidado, após ter recebido menção honrosa na edição anterior.

 

Completam a mostra na XXX, pinturas feitas por Fernando Carpaneda ainda na década de 1990. Elas pertenciam à coleção de Nelson Baco, professor de arte, amigo particular do artista e um de seus primeiros interlocutores quando ainda iniciante em seu ofício. Baco morreu há quatro anos e, desde então, essas peças estavam guardadas, enroladas fora de chassis e molduras, em seu antigo apartamento.

Foi de Rogério Carvalho a ideia de recuperá-las desse limbo e apresentá-las na XXX. Não apenas por se tratar de material inédito. Também por permitirem, ali mesmo no espaço expositivo, uma nova chave de leitura para a obra atual de Carpaneda.

Enquanto a produção recente pulsa num homoerotismo assaz contemporâneo, essas pinturas funcionam sob outra perspectiva. O esteta punk ali buscava diálogo com a mitologia pagã, a antiguidade clássica e o romantismo europeu. O que não impede Rogério Carvalho de apontar, em algumas daquelas figuras tão etéreas, poses e adereços típicos da cena gay brasiliense dos anos 1990.

Naquele meados dos 1990, afinal, Carpaneda já ultrapassava as fronteiras do movimento punk de Taguatinga, sua cidade natal e seu habitat de adolescência. Frequentava a vida noturna do Conic e boates como a New Aquarius, que ali funcionava, trazendo para dentro de suas pinturas e esculturas os personagens do bas-fond brasiliense.

 

Sob intermédio de Rogério Carvalho e a pedido da coluna Plástica, Fernando Carpaneda respondeu a algumas perguntas sobre as obras da mostra Homem Objeto:

Carpaneda, esta mostra traz uma série recente de desenhos e uma série recente de esculturas. Como você se divide entre os dois processos?
Meu processo de criação é paralelo, meus desenhos são geralmente estudos para minhas pinturas e minhas esculturas. A partir dos desenhos, crio esculturas e pinturas. E geralmente trabalhos em várias peças ao mesmo tempo.

Você usa modelo vivo? Você estabelece as poses e faz esboços ali na hora? Faz um registro fotográfico?
Eu uso três processos para a criação das obras: modelo vivo, fotografia e desenho. Geralmente deixo a escolha das poses com os modelos.

 

Como se deu o processo de criação desta série de esculturas de pequeno porte? Por que esta escala?
Optei por miniaturas porque é um trabalho mais difícil de se fazer, e porque não é um tamanho popular entre os artistas. Sempre gostei de desafios, e optei por fazer miniaturas. O processo de criação é o mesmo, usei modelo vivo, desenhos e fotos.

Qual a inspiração para essas pinturas que pertenciam a Nelson Baco? Elas me parecem dialogar com figuras da antiguidade clássica, passando pelo romantismo.
As pinturas que pertenciam ao Nelson Baco, foram estudos que eu fazia. A maioria das pinturas se trata de experimentação, com novas técnicas de pintura, novas tintas que criei e novos materiais. O diálogo com a antiguidade clássica foi proposital, porque criei novas técnicas e novas tintas para pintar figuras clássicas usando materiais modernos.

Qual a importância para ti, neste atual momento de carreira, de ter uma mostra em cartaz em Brasília?
Acho de uma importância enorme, porque toda a minha base como artista veio, de Brasilia, principalmente dos corredores e boates gays do Conic dos anos 80 e do movimento Rock Brasília. Minha base como retratista nasceu nesses lugares. Eu acho incrível ver certos personagens que retratei no Conic e em shows de rock nas cidades satélites serem expostos na Alemanha, em Nova York, Londres, etc. “O bom filho à casa torna”.

Bernardo Scartezini/Metrópoles

Jon (2017): lápis e acrílica sobre papel



 


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