*
 
 

2018 não foi um ano bom. Não para as artes, definitivamente. Do ano que já entrou para a história como marco temporal da chegada ao poder de um discurso conservador, contrário ao pensamento crítico em geral e às artes, em particular, restaram como símbolo as paredes chamuscadas das ruínas do Museu Nacional do Rio de Janeiro. Dois séculos vencidos em uma única noite.

No cotidiano ao qual a coluna Plástica se dedica a registrar, o da cena das artes visuais em Brasília, um sentimento ruim, misto de incerteza e desalento, entremeou nossas conversas com artistas, professores, curadores e galeristas. Porque foi essa mesma sensação que alimentou um tanto das exposições apresentadas nos últimos meses. E que já se embrenhou no processo artístico, no pensamento criativo e na própria temática de muitos dos realizadores.

Ainda há, porém, a convicção de que continuar o trabalho é a única resposta possível. É com essa certeza que dedicamos o espaço de hoje a um breve retrospecto da última temporada.

 

O ano foi aberto em tom de celebração. Uma larga exposição, recuperando a trajetória de Athos Bulcão (1918-2008), sob curadoria de Marília Panitz e André Severo, fez justiça a um dos pais fundadores da arte brasiliense. Após ser inaugurada, aqui, no Centro Cultural Banco do Brasil, a mostra 100 Anos de Athos Bulcão percorreu ainda todos os demais CCBBs: Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, numa demonstração do interesse nacional que o artista desperta e da permanência de sua obra.

Outras notáveis exposições, não apenas em ambição, certamente também em lastro artístico, percorreram os espaços institucionais ao longo dos últimos 12 meses. O mesmo CCBB recebeu uma mostra do pintor americano Jean-Michel Basquiat (1960-1988). Rara oportunidade de se encontrar, no lado de cá do globo terrestre, um panorama da carreira do enfant terrible transformado pelo sistema das artes numa das mais milionárias franquias da pintura S/A.

Dois heróis transgressores das artes nacionais também foram lembrados nos espaços institucionais brasilienses. O pernambucano Paulo Bruscky recebeu retrospectiva ainda em vida, montada na galeria principal da Caixa Cultural sob o olhar cúmplice de seus filhos. E o gaúcho Iberê Camargo (1914-1994), cuja obra é sempre levada a circular pela fundação gerida por membros de sua família, chegou ao Espaço Cultural Marcantônio Vilaça num recorte de seus últimos trabalhos.

Ainda em cartaz no CCBB até 20 de janeiro, a mostra de pintura italiana das décadas de 1930 e 1940 – batizada como Classicismo, Realismo, Vanguarda – traz três nomes de grande impacto na arte ocidental: Giorgio Morandi, Giorgio de Chirico e Amadeo Modigliani. E mais do que celebrar os celebráveis, a coleção do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo ofereceu um painel da arte que era possível numa Itália sob o fascismo de Benito Mussolini.

 

O circuito independente da capital federal, que se fortaleceu há cerca de cinco anos muito por conta do vácuo deixado pelo abandono de vários dos aparelhos culturais públicos, venceu mais uma temporada – não sem alguns solavancos.

Um dos agitadores maiores dessa cena, Dalton Camargos interrompeu as atividades da Alfinete Galeria, em setembro, para passar um ano em Londres. Nos meses em que funcionou em 2018, a lojinha da 103 Norte cumpriu com louvor sua agenda de exposições. Além de apresentar a mais recente produção de artistas, como Luciana Paiva e Allan de Lana (a imagem que abre esta página sendo um detalhe do ambiente criado para a sua mostra Re\ação), a Alfinete resgatou desenhos produzidos por Nelson Maravalhas na década de 1990.

Também trouxe obras inéditas da carioca Gisele Camargo e de três jovens pintoras: a brasiliense Camila Antunes, a mineira Renata Laguardia e a carioca Marcela Cantuária.

Aberto para o público um ou dois meses após a Alfinete, em meados de 2013, o Centro Cultural Elefante também se tornou polo gravitacional para as artes brasilienses. Ao fim de 2018, o proprietário Matias Mesquita e a diretora artística Cinara Barbosa anunciaram um novo momento para a casinha da 706 Norte. O calendário de exposições e a frequência dos cursos serão diminuídos para o Elefante funcionar intensamente como ateliê comum dos artistas Adriana Vignoli, Alina Duchrow, Débora Mazloum, Gisel Carriconde Azevedo, João Trevisan e Silvie Eidam – além do próprio Matias.

 

Realizado pela primeira vez em 2018 e já confirmado em segunda edição para este 2019, o programa BSB Plano das Artes movimentou a cena no início de março. Seu roteiro atravessou as galerias comerciais e os espaços independentes do Distrito Federal, oferecendo ao público a chance de visitar ateliês, como os de Clarice Gonçalves, Raquel Nava e Christus Nóbrega.

Também estava ali a oportunidade de apresentar a uma maior parcela de interessados a alguns espaços como a Pilastra, no Guará, e a ManOObra Galeria, em Sobradinho, que se colocam como as novas fronteiras da cena local.

Outra fronteira ainda a ser melhor divulgada é a Casa Niemeyer, no Park Way, reformada pela Universidade de Brasília e tocada sob a mesma administração que vem reformulando as atividades da Casa da Cultura da América Latina, emprestando nova vida ao Setor Comercial Sul.

Já no fim do ano, foi a vez de Luis Jungmann Girafa reinaugurar sua Matéria Plástica. De espaço um tanto improvisado nos fundos de casa, no Altiplano Leste, a galeria, agora reformada, deu um salto de qualidade – gerando expectativas para a sequência de sua programação de exposições, aberta com Pedro de Andrade Alvim.

Centro geográfico e emocional de todo esse circuito artístico, o Museu Nacional Honestino Guimarães cumpriu mais uma temporada com mostras de maior apelo (como a coleção de gravuras do Itaú Cultural) seguidas por recriações em torno do acervo da instituição (Possíveis Geometrias, sobre o concretismo dos anos 1950 e suas reverberações atuais). E o diretor Wagner Barja manteve as portas abertas tanto para o público, com a política de não cobrar entrada, quanto para os artistas locais, envolvidos em mostras individuais ou coletivas.

Nesse clima, a terceira edição da coletiva ondeandaonda, bolada por Barja para mapear o circuito independente da arte distrital, saiu do Museu Nacional e serviu como gancho para a reabertura do Espaço Cultural Renato Russo, após anos fechado.

A retomada imediata da 508 Sul deve ser um objetivo em comum tanto de entusiastas das artes plásticas quanto de amantes do teatro, da dança, da música e do cinema, enfim, dos brasilienses em geral. A esperar que o novo governo do Distrito Federal assuma realmente o espaço e faça com que ele volte a funcionar na plenitude de sua vocação. Oferecendo não apenas exposições, espetáculos ou concertos. Principalmente, reabrindo sua biblioteca e sua gibiteca, retomando seus cursos de arte.

Isso sem falar, claro, do Museu de Arte de Brasília e do Teatro Nacional Claudio Santoro – permanentemente interditados, governo após governo, à espera de reformas e tal…

Para 2019 e para o futuro que daqui se consegue enxergar, pensar a arte, fazer a arte, viver a arte deverá ser cada vez mais atividade cotidiana, gesto político, exercício de democracia. Após intervalo de duas, três décadas de crescentes liberdade e tolerância, voltemos a abraçar a arte como um ato de resistência.

Bom ano e boa sorte.

Bernardo Scartezini/Especial para o Metrópoles

Espaço Cultural Renato Russo



 


arteartes plásticasarte contemporânearetrospectiva 2018