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Basta o sol se pôr que começa a debandada no Setor Comercial Sul. Se Brasília há de ter um centro, no sentido urbanístico e sociológico do termo, eis então o centro pulsante de nossa mui planejada cidade. Mas assim que cai a noite, aqueles quarteirões – cheios de carros em fila dupla e de gente apressada – se tornam ermos em poucos minutos. Ainda mais numa véspera de feriado.

Oito e pouco da noite, primeiro de novembro, véspera de Finados. Quando até os mais atrasados vendedores e funcionários já estão em avançado processo de fuga para suas residências, uma rapaziada começa a chegar na Casa da Cultura da América Latina, à quadra 4 do SCS.

Portas de ferro baixadas, luzes apagadas, vigilantes bebendo café nas portarias. O pessoal que trabalha na reforma no Edifício Nordeste, pela última vez naquele dia, descarrega um carrinho de mão na caçamba de entulhos à porta do prédio. Do outro lado da rua, ainda escapa, para os ouvidos mais atentos, uma pesada doutrinação sobre a parábola do bezerro de ouro, de acordo com o Antigo Testamento.

Levando-se em conta o entusiasmo do orador, o culto das 19h ainda se estenderá um bocadinho mais naquela sobreloja comercial. Enquanto cá na Casa da Cultura da América Latina, a CAL, esta noite de quarta-feira marca a abertura de três mostras de arte contemporânea que seguem em cartaz pelas próximas semanas.

E esta noite – atenção! alerta máximo! – reserva ainda uma apresentação do Grupo EmpreZa. O coletivo goiano-brasiliense atingiu relevância mundial graças à exploração, sem concessões, do corpo como plataforma política e artística em suas performances.

Será a primeira apresentação do EmpreZa em Brasília desde o comecinho de maio, quando os artistas participaram do projeto Fuga, da Alfinete Galeria, no ateliê da artista Valéria Pena-Costa. A se guiar pelo calendário, vá lá, nem faz tanto tempo assim. Seis meses.

Perceba, porém, como podem mudar as coisas em apenas seis meses. Daquela feita, o grupo simbolicamente esperou bater a meia-noite para não furar uma #GreveGeral organizada por sindicatos e associações trabalhistas de todo o país. Ainda havia uma certa mobilização na sociedade brasileira e pairava no ar uma expectativa de urgente mudança no governo federal.

Não só isso tudo de repente se desmanchou, em tão pouco tempo, como o próprio estatuto da arte entrou em xeque nas últimas semanas, numa crescente onda de censuras, perseguições e constrangimentos após o traumático fechamento da exposição “Queermuseu”.

 

Assim a “Defumação”, uma performance de abertura praticada pelo Grupo EmpreZa a cada início de atividades, ganha nova camada de significados à medida que os artistas derramam torrões de sal grosso e espalham nuvens de incenso à frente do Edifício Anápolis. Ao tanger do berrante, todos, tanto os performers quanto o distinto público, entram no prédio para a sequência dos trabalhos.

“É importante entender esta contaminação muito própria das performances”, explicará João Angelini, um dos nove membros do EmpreZa, conversando com a coluna “Plástica” dois dias após os acontecimentos daquela quarta-feira. “Uma obra artística não se encerra nela mesma. Uma obra está em contato não apenas com o espaço físico ao seu redor mas também com o espaço temporal.”

“Isso acontece com toda expressão artística, mesmo que esteja emoldurada como uma pintura, mesmo que seja uma escultura sobre um pedestal. E isso acontece com mais força na performance”, prossegue Angelini. “A pessoa que está ali assistindo uma performance traz uma carga de traumas e de sentimentos que se emaranha com a carga da própria obra. O mesmo gesto então pode adquirir outros significados de acordo com o lugar onde você está, de acordo com o momento que você está passando e, claro, de acordo com o momento histórico que se está atravessando.”

 

Entrando no Edifício Anápolis, descendo a escada que leva ao subsolo e cruzando uma porta de ferro, o cortejo puxado por berrante, pandeiro e berimbau atinge a garagem da CAL. Ali se passará a ação do EmpreZa neste expediente, e também espalhando-se para o beco dos fundos, a rua de serviço que forma um estreito vale de asfalto e cimento entre os prédios.

É o tipo do lugar que naturalmente funciona como uma câmara acústica. E os integrantes do EmpreZa recebem o desavisado público disparando uma saraivada de bombinhas de São João para testar o eco do beco. Não, nada que possa ferir quem quer que seja. Mas tente manter uma postura cool e ereta enquanto artefatos desconhecidos explodem sem aviso por todos os cantos, pipocando de um lado e ecoando do outro como num tiroteio.

Essa ação ainda não recebeu nome e talvez nem entre no repertório do EmpreZa. É apenas a segunda vez que foi apresentada. Criada há três anos, serviu originalmente para marcar de maneira assim peculiar o Dia de São João, que caiu justamente durante uma residência do coletivo no Museu de Arte do Rio (MAR). O mesmo gesto pode assumir diferentes significados, como diria João Angelini.

 

Uma nuvem espessa de fumaça toma conta do beco e deixa o público num estado de apreensão e alerta que lhe será bastante útil para o resto da noite. O Grupo Empreza, afinal, não é famoso por dar trégua para ninguém.

Buscando refúgio na garagem, o já atordoado e um pouco ensurdecido espectador então se depara com outra performance acontecendo simultaneamente. No cantinho mais escuro, pode-se vislumbrar uma figura humana. O camarada parece estar nu, difícil saber ao certo – mas sim – ele está nu.

Temos certeza de sua nudez à medida que duas tochas iluminam um pedaço de seu corpo a cada vez. Iluminam e queimam os cabelos do corpo. As chamas lambem a pele e levantam aquele cheirinho característico de pelo queimado. Não se pode ver exatamente o que se passa – mesmo assim pode-se sentir. “Apelação” é o nome da performance.

 

Há sempre um componente de tortura mental e/ou física nos exercícios do EmpreZa. E os suplícios então começam a se sobrepor, transformando aquela antes prosaica garagem numa câmara de torturas para a arte contemporânea.

Uma saca de milho é esvaziada no chão, diante de um aparelho de televisão sem sintonia. Uma integrante do EmpreZa lança-se à cena e se ajoelha sobre o milho, de frente para o altar da tevê, recriando ali naquele lugar uma arcaica penitência religiosa.

Que essa é outra vertente a informar os trabalhos do coletivo. Há toda uma liturgia envolvida e repetida a cada vez, como se percebe desde o ritual de abertura da sessão. E “Cartigo”, essa performance sobre milho, expõe a questão do esgotamento físico da artista, estendendo-se por mais de dez minutos, mais de meia hora, mais de uma hora, estendendo-se para bem além do razoável, atravessando silenciosamente as demais ações do grupo que seguem ocorrendo noutros cantos.

 

Outra vertente que informa os trabalhos do grupo é o universo corporativo, seus valores, suas condutas, seu modo de vida. No canto mais iluminado da garagem, uma moça se apresenta androginamente vestida de terninho e gravata. Parece estar pronta para uma reunião.

De fato: primeiro um colega de corporação e depois outro chegam a seu auxílio na performance “Leviatã”. Às marteladas, a moça é pregada na parede pelas roupas, os sapatos são pregados ao chão. Cada pedaço de tecido e de couro é puxado e arregaçado para que seja diligente e pacientemente martelado. Até que a pessoa esteja literalmente crucificada pelas próprias vestes.

Nenhuma palavra é dita. Nenhum resmungo. Nenhum suspiro. Nem quando a martelada parece errar o prego e atingir a carne. Sequer depois de uma hora de joelhos sobre o milho. Sequer com os pelos do corpo queimados.

 

Como será que ela vai sair dali?

Um barulho de enxada como resposta. No lado de fora da garagem, no beco, a nuvem de fumaça já se dissipou, revelando uma fogueira ardendo na calçada oposta. Dois homens desmancham a fogueira, virando seu tambor de lado e espalhando as brasas no chão.

Dali tiram uma pedra vermelha de quente. A fogueira estava acesa desde as quatro horas da tarde. Tempo necessário para deixar uma pedra esturricando. A pedra é levada com uma pá até o meio da pista. Servirá de base para “Contrato”.

Nessa conhecida performance do EmpreZa, dois homens em trajes corporativos fecham contrato com sangue. Agulhas furam os pulsos e, enquanto o sangue vai escorrendo, eles se cumprimentam com as mãos molhadas. O sangue pinga no asfalto e na pedra.

 

Ao longo da noite de aventuras, boa parte do público foi se retirando sem alarde. Deixando como testemunho, e como trilha sonora, o ranger indiscreto da porta de ferro que, abrindo e fechando, abrindo e fechando, serve como rota de escape da garagem.

Para fechar o expediente, aquela que talvez seja a mais conhecida e infame performance do repertório do Grupo EmpreZa: “Cintada”. Um dos artistas tira, peça por peça, sua roupa de escritório, o traje característico do coletivo, até ficar nu. Então assume posição apoiado com os braços na parede.

Um colega entra em cena, de cinto na mão, e começa a açoitá-lo. Depois de algumas boas lambadas, o espetáculo se abre para a audiência e você também pode experimentar – por apenas R$ 1,99 – qual a sensação de descer uma bela cintada no lombo nu de um ser humano.

Bernardo Scartezini/Metrópoles

Vestígios da performance “Leviatã”, do Grupo EmpreZa

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