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O Tempo de Nossas Vidas, politicamente, pode ser compreendida como uma exposição de arte contemporânea que busca dialogar com o Seminário LGBT do Congresso Nacional. A mostra foi aberta na noite da última quarta-feira, fechando o dia de atividades do fórum.

Em anos anteriores, o seminário e a mostra já aconteceram no mesmo lugar, dentro da Câmara dos Deputados. O curador Clauder Diniz, no entanto, reviu sua estratégia e achou que os tempos atuais pedem que a chamada arte queer escape para além dos corredores acarpetados do parlamento.

Encontrou abrigo na Casa da Cultura da América Latina, o braço da Universidade de Brasília em meio ao Setor Comercial Sul. Em cartaz até 17 de julho, O Tempo de Nossas Vidas, assim, parte do principal assunto do seminário deste ano – o envelhecimento sob a perspectiva da comunidade LGBT – para ampliar seus interesses, apresentando panorama de artistas de diferentes gerações, filiações e intenções.

“Pretendo mostrar que a arte queer traz um tanto de choque. É o choque do que não é visto todos os dias, do que não é aceito por todos. Mas traz também a sutileza. Não traz apenas o confrontamento, traz também o lirismo e o erotismo. Esta mostra não fala apenas de política. Fala também de desejo.”

Entre os artistas convidados deste ano, convivendo com jovens emergentes da cena brasiliense, há um professor do Instituto de Artes da Universidade de Brasília. Arredondando quarenta anos de carreira nesta temporada 2018, Gê Orthof ganhou um bom pedaço da galeria do segundo andar do Edifício Anápolis.

Gê Orthof ali se espalhou, de parede a parede, ao longo do chão, erguendo uma inédita instalação chamada Buraco, que se abriu para Clauder Diniz como um centro gravitacional e emocional para toda a mostra.

Em novembro passado, Gê esteve no Senado Federal para ouvir a arguição dos curadores Gaudêncio Fidélis e Luiz Camillo Osório, conduzidos coercitivamente à CPI dos Maus-Tratos. Gaudêncio fora responsável pela exposição Queermuseu, fechada no Santander Cultural de Porto Alegre. Osorio montara o 35º Panorama da Arte Brasileira, censurado no Museu de Arte Moderna de São Paulo.

“Fiquei estarrecido com o grau de intolerância de alguns dos senadores, eles não queriam escutar o que os dois tinham a falar. No fundo, é um jogo de tensão entre o desejo irrealizado, que se torna perversão, e este outro lado, humano, da vida, da arte.”

Tendo isso claro para si naquela tarde, Gê Orthof logo depois recebeu convite de Clauder Diniz para participar de O Tempo de Nossas Vidas. Quis fazer, então, uma obra inédita, à altura da ocasião. “Dentro da situação atual de insanidade total, violência e irracionalidade, terror e pânico, optei por algo especial para este projeto.”

Como acontece frequentemente no processo criativo de Gê, as leituras que ele tinha em mãos naquele momento – uma seleta de contos de Tennessee Williams, um volume da ensaísta Laura Kipnis, uma coletânea de poesia erótica brasileira sugerida por Clauder Diniz – foram parar dentro da obra, sobre as paredes da galeria, na caligrafia do próprio artista.

As relações entre a sexualidade e o envelhecimento soaram ricas para Gê Orthof, que já vinha trabalhando a partir de cartões postais encontrados em lixeiras. De outras vezes, ele se utilizara de imagens adquiridas em antiquários ou lojas de penhor. Mas agora os postais reunidos foram todos retirados do lixo.

A ideia de descarte trouxe para Gê uma conotação social, o duplo descarte a que são submetidos os gays idosos, tanto pela homossexualidade quanto pelo envelhecimento. Por outro lado, o objeto do cartão-postal remonta a um outro tipo de circulação de imagens, bem diferente dos tempos atuais de frenesi digital em rede social.

“O cartão postal traz um tempo anterior, quando um indivíduo escolhia uma imagem durante uma viagem para enviar para outro. Uma coisa da natureza do íntimo. E aquele lugar que estava no postal ele escolhia para ser a memória dessa outra pessoa.”

Toda viagem tem também um elemento de fantasia, de proibido – acredita Gê Orthof. De tal forma que aqui os postais sofrem interferências, numa espécie de assemblage, de três diferentes sets de baralhos. Todos protagonizados por jovens homens nus. Figuras, ensina Gê, extraídas do imaginário do ilustrador finlandês Touko Valio Laaksonen, mais conhecido como Tom of Finland (1920-1991) – e que, com o passar do tempo, se tornaram clichês do mundo gay.

“Buraco é o único jogo de baralho que conheço, eu jogava com minha avó. Então é o nome perfeito para esta instalação. Buraco do ânus, buraco da cidade, buraco no qual alguém se mete e não sai mais. Com o nome definido, comecei a construir, como de hábito, essa arquitetura afetiva de rés do chão, onde você tem essa tridimensionalidade muito pequena, rastejante. Um jogo em que você olha de longe e parece ser uma coisa. Quando chega perto, é outra. Uma brincadeira entre o pornográfico e o infantil. Como brincar de casinha. Sem a moral perversa que a sociedade impõe sobre a dinâmica.”

Movendo-se entre o sutil e o explícito, esgueirando-se no chão e trazendo o espectador para perto de si, fisicamente para dentro de sua obra, Gê Orthof em seu Buraco estabelece uma noção de intimidade e cria algumas dinâmicas que contaminam os arredores e enriquecem a mostra com um todo.

Logo ali ao lado, margeando o Buraco, três exercícios em fotografia que poderiam ser muito dissimilares parecem encontrar equilíbrio. Maria Eugênia Matricardi, ex-aluna de Gê, trabalhou em parceria com ele em algumas disciplinas da UnB. Ela é mais conhecida como performer e empresta ao ambiente expositivo uma certa ritualidade nos registros de Desfrute, uma ação em que ela chupa manga cortejando a figura do drag king ao masculinizar seu corpo e neutralizar os aspectos femininos.

Também ligado à UnB, Caio Jinkins trabalha a ideia de distância/proximidade em pequenos objetos de parede que funcionam como foto-instalações. Permitindo-se interessar pelas imagens e buscando chegar mais perto delas, o espectador encontra jogos de significados dentro de uma escala orthofiana.

Ainda na mesma sala, o artista mexicano Nelson Morales traz um lastro etnográfico à empreitada de Clauder Diniz. Desenvolvido na região de Oaxaca, o trabalho de Morales consiste em retratar o cotidiano dos muxes, membros da etnia zapoteca que não se definem como hetero, homo, bi ou transexuais, permitindo-se vestir seja como homem, seja como mulher. E são aceitos com naturalidade pelas famílias e pela comunidade.

Outros dois artistas estrangeiros participam de O Tempo de Nossas Vidas, numa intenção recente de expandir fronteiras, que Clauder Diniz entende ser politicamente adequada, uma vez que esta mostra LGBT anual deve ter como espaço a Casa da Cultura da América Latina para as próximas cinco edições.

As contribuições de Rocio Garcia, de Cuba, e Fredman Barahona, da Nicarágua, estão na galeria que fica no térreo do Edifício Anápolis. Ali também podemos encontrar outros dois artistas brasilienses já bem conhecidos.

Professora aposentada da UnB, Bia Medeiros é referência para um par de gerações brasilienses graças ao trabalho à frente do coletivo Corpos Informáticos, do qual participa Maria Eugênia Matricadi. Bia aqui está em empreitada solo, Ctrl C Ctrl V, em que ela registrou e ampliou digitalmente a própria pele, enfatizando os pelos, as rugas e as manchas de senilidade. As imagens foram impressas em papel vegetal. Esse material, por sua vez, sofreu também uma deteriorização – lanhos, rasgos, cortes, etc.

Márcio H. Mota, que já passou pelo Corpos Informáticos, é outro destaque dessa sala, com uma de suas obras escultóricas. Em Palavra Pão, uma pequena escultura de gesso de 12 centímetros de altura recebe, graças a uma projeção de vídeo, as feições de dois noivos. O som do trabalho ganha a sala.

Numa outra chave, Leci Augusto, artista que milita no movimento feminista, abre um momento de ativismo político num ano marcado por assassinatos brutais como os de Marielle Franco e Matheusa Passarelli. Pequenos retratos de mulheres, feitos em momentos de intimidade e cumplicidade, foram enquadrados em antigos slides, sangrando na parede longos fios de tecido vermelho.

A proposta de Clauder Diniz em estabelecer um encontro de gerações fica clara à medida em que outros trabalhos apresentam referências pop de histórias em quadrinhos, memes de internet, gifs e até uma expressão de Neymar Júnior eternizada no Twitter: a já clássica “Deus é top”. Cortesia da artista brasiliense Pamela Anderson.

Da lembrança de feminicídios à irreverência de Neymar Júnior, há largas oscilações de humor dentro da mostra. A polifonia, para Clauder Diniz, soa natural numa coletiva assim heterogênea. Serve para ilustrar que a arte queer pode assumir diferentes posturas.

“Estamos falando de coisas primárias: respeito e tolerância”, define Clauder Diniz. “Sou de uma geração que teve dificuldade de sair do armário e de se posicionar. Muito mais do que estes jovens de hoje em dia. A batalha contra o conservadorismo será para sempre. Porque neste momento está havendo uma regressão rápida, um movimento ultraconservador, fazendo com que todo mundo se sinta novamente impedido de ser o que é.”

Por isso o Setor Comercial Sul, no coração da cidade, se tornou uma ponta de lança para as intenções de Clauder Diniz. E por isso o curador dedicou a galeria de bolso localizada no térreo da CAL, pequenina como o nome sugere, mas dotada de amplas janelas de vidro, para uma mini mostra do paulista Francisco Hurtz, dono de uma postura política e de um traço explícito que deve chamar a atenção até de quem passa ligeiro a caminho do trabalho, a caminho do ponto de ônibus.

“Esta mostra é um exercício de arte em busca de tolerância. Por isso mesmo vale dizer que nem todos os artistas nesta exposição são gays. Eles estão aqui porque trazem em seus trabalhos à representação do universo LGBT. essa é uma preocupação, ou deveria ser uma preocupação, de todo mundo que pensa a arte e o país.”

Bernardo Scartezini

O Julgamento de Gaia ou Olha o Tamanho do Pinto Dele! (2017), de Ricardo Gauthama: acrílica sobre tela



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