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Diego Castro apresentou dissertação de mestrado na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo sobre a transposição da imagem no campo tridimensional. Habituado a cobrir, com sua prática cotidiana de ateliê, as distâncias entre a teoria da academia e os interesses do mundo real, o artista paulistano abriu n                          esta semana sua primeira mostra individual em Brasília.

Geografia da Imagem está em cartaz na Casa da Cultura da América Latina, no Setor Comercial Sul, até 25 de março. Sob curadoria de Ana Avelar, a mostra se apresenta como uma incursão pelos diferentes suportes que o artista vem exercitando ao longo de pouco mais de uma década de carreira.

No decorrer da visitação, diferentes aspectos da violência urbana explodem, às vezes em cores contrastantes, às vezes silenciosamente, reverberando uma peça na outra, rebimbando pelas paredes. “A ideia é criar um efeito cascata de significados”, anuncia Diego.

De modo que, nessa cascata, apesar da heterogeneidade de materiais e suportes, a unidade temática, assim como a repetição de alguns gestos, permite que Diego Castro muitas vezes trate da mostra como uma única obra – uma “colagem espacial”, em suas próprias palavras, na véspera da abertura.

 

Num dos cantos da sala, pulsa em vermelho um conjunto de quatro pequenas peças de madeira, exercício de pintura monocromática. São as mais antigas obras desse conjunto, e talvez aquelas que mais claramente representem os interesses e a poética de Diego Castro.

Diego conta que não usa imagem alguma feita por ele mesmo, sempre se apropria de imagens alheias em alguma instância, desde o próprio espaço arquitetônico até as cenas de manifestações – caso específico dessa série de pinturas. Então, o artista vai tirando a funcionalidade da imagem para pensar aspectos técnicos próprios a ela.

No caso das pinturas da série Manifestação Vermelha, ele xeroca fotografias sobre chapas de madeira para, a partir dessas impressões, trabalhar com a materialidade da tinta (vermelha) sobre a superfície: a espessura, sua transparência, o quanto ela apaga a imagem ou permite certos resquícios do que está ali debaixo, o quanto ela adere ou não às interferências geométricas que o artista promove sobre o plano.

 

Nesses trabalhos, Diego Castro permite que a materialidade da tinta promova seus efeitos em larga escala, o resultado final de cada trabalho foge a seu controle – impossível calcular e antecipar exatamente como a tinta reagirá a cada vez.

Na série de desenhos Face/Off, título emprestado de um filme de ação do cultuado diretor John Woo, por sua vez, Diego reassume o controle total. Ao dominar o grafite sobre o papel, ele trabalha com o esmero de um retratista, ligando-se a um ofício ancestral e recorrente na história da arte.

Em vez de rostos, no entanto, Diego está a retratar panos, capuzes que cobrem os black blocs. Mais uma vez, tratam-se de imagens manipuladas. Ele parte de fotografias de manifestações, limpadas no computador, apaga todo o contexto e qualquer instância narrativa da cena – deixa apenas aquelas cabeças sem corpo – e, em vez de traços e fisionomias, o artista copia pregas e drapeados.

 

Esses desenhos e aquelas pinturas sobre madeira foram as únicas obras que Diego Castro trouxe assim, já prontas e acabadas, de seu ateliê no bairro paulistano de Perdizes. Teve apenas que pregá-las nas paredes.

Todo o resto da exposição, Diego montou dentro da Casa da Cultura da América Latina a partir de materiais que foram ordenados e rearranjados in loco. Para tanto, trabalhou intensamente no fim de semana e nos dias que antecederam a abertura da exposição. Mantendo-se aberto a acontecimentos e imprevistos até o último momento.

Caso de Emparedamento, por exemplo. A princípio, essa obra se resolveria de forma simples: vinil adesivo verde colado sobre a parede pintada de vermelho, num exercício de sobreposição que se valeria da dinâmica entre as duas cores complementares para emprestar uma ilusão de profundidade figura/fundo. Mas o item não se comportou como o esperado, não aderiu à parede. Até que, a dois dias da abertura, o vidro de uma antiga vitrine da CAL surgiu como solução. O adesivo pôde ser colado nele – e a obra ganhou uma imprevista espacialidade.

 

Emparedamento, com sua silhueta de escudos atrás dos quais podemos adivinhar soldados armados, é uma obra de aspecto semelhante a Púlpito, que recebe o visitante logo à entrada da exposição.

Púlpito funciona também em amarelo e verde. Um duplo, um jogo de avessos. Primeiro a obra se revela numa parede para, assim que o espectador cruzá-la, apresentar-se do outro lado em cores contrárias. E aqui o “efeito cascata de significados” de que nos fala Diego não apenas se evidencia – vira rastilho de pólvora.

“Quando tenho a oportunidade de montar uma mostra individual, penso na ativação do espaço”, conta Diego, justificando sua opção por vir trabalhar dias antes da abertura da exposição, uma escolha que tem a ver tanto com a logística de trazer as obras de São Paulo para Brasília quanto com o seu processo criativo. Essa mostra só se realizou porque ele esteve naquele ambiente para poder realizá-la.

 

A questão cromática, o uso das cores se mantém estrutural para Diego Castro mesmo quando ele parece ser um tema menor, parece ter efeito secundário. Se artista apresenta um trabalho serial, exigindo mais do olhar do espectador para desbastar o que se acumula em primeiro plano, essa chave da cor se mantém.

Ocupando toda a parede ao fundo da sala, devidamente pintada em cinza de fora a fora, a instalação Extra, Guerra! é considerada por Diego como o centro nervoso de sua Geografia da Imagem. A obra reverbera um estudo de caso ao qual o artista vem se dedicando desde setembro, quando passou a arquivar o caderno Guerra do Rio, que o tabloide carioca Extra! publica diariamente.

“Ao estudar uma imagem, me interessa como ela se replica, qual o meio de divulgação em que está inserida e como esse meio funciona. A partir disso, vou catalogando as imagens, desenhando e alguns desenhos viram projetos, desde trabalhos bidimensionais, como a pintura, até instalações ou esculturas.”

 

Buscando criar uma dialética de imagens, Diego Castro trabalha tanto com obras da ordem do mínimo, que se resolvem em silhuetas, quanto com obras assim, seriadas, que se desdobram em sequências e repetições.

Na parede ao lado das páginas de jornais, um ambiente azul-clarinho dá conta de uma aparente serenidade. Mas ali se imiscui uma outra forma de violência. #SomosTodos é também uma obra inédita, e esta seu autor se sentiu especialmente vocacionado para apresentar pela primeira vez justamente na capital da República.

Diego retorna ao caso da performance do artista Wagner Schwartz no Museu de Arte Moderna de São Paulo, em setembro do ano passado, episódio que provocou uma onda de intolerância nas redes sociais e de ataques à arte contemporânea, muito no embalo da interdição da mostra Queermuseu, ocorrida dias antes em Porto Alegre.

A partir de uma simples postagem do MAM-SP no Instagram, Diego Castro fez o que muita gente de bom senso jamais teria feito: abriu a caixa de comentários.

Bernardo Scartezini/Metrópoles

Emparedamento (2018): vinil adesivo, vidro, tinta látex sobre parede



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