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O artista português Alexandre Farto viaja o mundo, indo bem além da Europa, visitando cidades e praticando intervenções de arte urbana ao redor do globo. Em uma de suas temporadas no Brasil, em 2014, teve a oportunidade de passar alguns dias na Aldeia Araçaí, em Piraquara, na região metropolitana de Curitiba.

Alexandre Farto, também conhecido como Vhils, percebeu entre os índios guarani uma destreza no artesanato em madeira. Então abriu processo criativo com os colaboradores que ali encontrou. Vestígios dessa residência artística em Araçaí estão agora na galeria principal da Caixa Cultural.

A instalação Incisão foi primeiro apresentada, ainda em 2014, na Caixa Cultural de Curitiba, cidade distante não mais de cinquenta quilômetros da Aldeia Araçaí. Mais tarde, viajou para Recife. A cada vez, Vhils assumiu a expografia e tratou de adequar a obra ao espaço que a recebeu.

 

Desta feita, dentro do largo cubo branco da galeria brasiliense, num pé-direito de 4,30 metros, a instalação se revela numa impossível arquitetura de madeira e ar. Duas dezenas de portas de madeira, recolhidas entre lixões e demolições, já perderam aquela antiga e proverbial função, a de abrir e fechar. Livre de paredes, livre de contingências habitacionais. E agora aparentadas aos tótens em sua verticalidade.

As peças criam uma espécie de labirinto e convidam o prezado visitante a adentrá-las. Quando o observador dá um passo adiante, aproximando-se de cada uma dessas peças, elegendo a unidade em detrimento do conjunto, passa a entender melhor o que aprontou Vhils entre os guaranis. As portas, como objetos em si, estão preservadas em toda riqueza de seu abandono – cores e ornamentos, rachaduras, trincas enferrujadas, fechaduras entortadas.

 

E sobre as portas, Vhils agiu com um escultor diante de uma pedra. Entalhou em baixo relevo alguns dos rostos que conheceu em Araçaí. Também desenhou ferramentas e indumentárias indígenas. As suas incisões, algumas mais fundas, outras superficiais, apenas o suficiente para raspar a camada de tinta, por vezes se confundem com a forma original da porta, os nós da madeira, os desgastes do tempo.

Já deslocadas de sua função, as portas passam então a receber essa segunda camada de significados – como se o artista revelasse a memória daquele objeto, ou quem sabe, ao lançar a sombra de um rosto sobre aquela peça, estivesse a criar, a intuir um passado.

 

Vhils vem trabalhando esse tipo de procedimento – e testando suas implicações – em viagens pelo mundo. Na antecâmara desta galeria, a poucos metros de Incisão, uma série de fotografias em backlight traz o repertório de intervenções que o português vem realizando em anos recentes.

Em Araçaí, Vhils e seus colegas guaranis entalharam o baixo relevo de um retrato sobre a parede de madeira de um casebre. Em Recife, ele inscreveu um rosto de semelhantes feições indígenas na lateral de um edifício na Travessa do Arsenal de Guerra. O artista viajante trabalhou também na Itália e na Romênia, em Espanha e Portugal, na Noruega, na China, no Havaí. Registrando em cada um desses lugares, em larga escala, o rosto de anônimos habitantes.

(Marielle Franco foi homenageada com seu retrato em Lisboa, no ano passado.)

Vale notar um aspecto assaz revelador da biografia de Alexandre Farto. Ele começou como grafiteiro, ainda aos treze anos de idade, mais tarde passando a trabalhar em estêncil, material igualmente caro à arte de rua, antes de começar a rodar galerias internacionais e realizar obras sob encomenda.

De certa forma, esse trajeto é reconstituído em Incisão. Não só por aqui Vhils apresenta, em menores dimensões, os mesmos temas a que se dedica em suas intervenções urbanas. Também pelo simbolismo da porta – o limite físico do atravessamento entre as esferas privada e pública, individual e coletiva.

Bernardo Scartezini/Especial para o Metrópoles

Detalhes de Incisão na galeria principal da Caixa Cultural



 


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