A vida de Nilce Hanashiro concentrada em forma de exposição

A exposição está em cartaz no Museu Nacional da República

Bernardo Scartezini/Especial para o MetrópolesBernardo Scartezini/Especial para o Metrópoles

atualizado 26/02/2019 14:58

Uma larga mostra no Museu Nacional Honestino Guimarães busca dar conta da produção múltipla de Nilce Eiko Hanashiro e apresentá-la a um público maior. Partindo do desenho, assumindo as performances, criando instalações, foram 40 anos de trabalho ininterrupto – quase inteiramente em Brasília.

Descendente de japoneses, Nilce Eiko Hanashiro (1948-2015) nasceu em Itarari, interior paulista. Quando tinha dez anos de idade, a família chegou à nova capital. Eles moraram na Cidade Livre, hoje Núcleo Bandeirante. Já no início da década de 1960, se mudaram para a Asa Norte.

Na Asa Norte, altura da 706, curiosamente no mesmo imóvel que hoje abriga o Elefante Centro Cultural, a família de Nilce foi vizinha da família de Gladstone Menezes. Era a década de 1990, época em que o jovem Gladstone começava a frequentar a cena das artes plásticas, naturalmente aproximando-se de Nilce.

Com a morte da artista, em 2015, a família deixou aos cuidados de Gladstone o acervo acumulado. Ele formou equipe com a pesquisadora Angélica Madeira e o fotógrafo Almir Israel (que assinaria a expografia da mostra) para desbravar o espólio. Dois anos de dedicação. Separaram e catalogaram as obras, tentando encaixar os trabalhos em séries, encontrando afinidades de materiais e de época. Poucas peças tinham títulos, quase nenhuma tinha data.

 

Nas suas conversas com Gladstone, Nilce Hanashiro frequentemente se referia com grande estima à pessoa de seu professor Fernando Cocchiarale, da época em que frequentou a Escola de Artes Visuais do Parque Lage, na segunda metade dos anos 1970.

Cocchiarale ainda dá aulas no Parque Lage, Rio de Janeiro, além de lecionar na Pontifícia Universidade Católica há 40 anos. Em paralelo à carreira acadêmica, também tem vasto currículo como curador, atualmente respondendo pela chefia do Museu de Arte Moderna do Rio. Por tudo isso, e pelo apreço de Nilce, ele se colocou como a figura ideal para assumir, ao lado de Gladstone, a curadoria da mostra que se encontra aqui no Museu Nacional – Nilce Eiko Hanashiro: Antologia.

 

O fato de Gladstone ter recebido o domínio sobre a integralidade da obra de Nilce permitiu que esta mostra assumisse um grande fôlego enquanto retrospectiva. Foi possível um trabalho bem mais completo, atravessando todas as fases da carreira, do que teria sido no caso de a posse de obras da artista se pulverizar ao longo dos anos, peças parando nas mãos de diferentes colecionadores e instituições.

Passeando pelas salas do Museu Nacional, horas antes da abertura da exposição, há um par de semanas, Fernando Cocchiarale aponta para os desenhos em grafite e as séries de trabalhos em aquarela. Em ambos os casos, a força do conjunto, ele acredita, empresta mais qualidade para cada uma das partes – e por isso a ideia de expôr as peças de Nilce quase como polípticos, formando composições pelas paredes.

 

Fernando Cocchiarale conta ter se reencontrado uma única vez com a ex-aluna após o Parque Lage. Foi em 2010, numa mostra do Espaço Ecco voltada ao cinquentenário de Brasília. Cocchiarale fez a curadoria dos nomes nacionais e a galerista Karla Osorio incluiu artistas da cidade – entre os quais, Nilce Hanashiro.

Nilce erguia ali pela primeira vez A Fonte, sua transbordante instalação em tule, cetim e flores de tecido. Um trabalho muito diferente daqueles que Cocchiarale pudera conhecer no Parque Lage, mas no qual ele imediatamente reconheceu valor. Na temporada carioca, décadas antes, Nilce ainda se dedicava apenas a desenho e pintura. Quando partiu para as instalações e as performances, já de volta a Brasília, conta Gladstone, apenas esporadicamente voltou a desenhar ou pintar.

 

No entanto, hoje se percebe um certo caráter performático em alguns de seus desenhos – como se ela estivesse a antever neles os gestos e o uso do próprio corpo como suporte. O fato de Nilce ter feito performances intimistas (sempre sozinha diante de sua máquina fotográfica Yashica) requalifica as obras anteriores, no entender de Cocchiarale.

Então o próprio projeto expográfico foi pensado para potencializar uma transversalidade entre os materiais, entre os suportes. Os conjuntos de desenhos e pinturas vão se desdobrando, à medida em que o visitante percorre as quatro salas dedicadas à mostra no Museu Nacional, abrindo espaço para outros registros. Multiplicando-se nas fotografias de performances, na apropriação dos retratos em branco e preto de antigos álbuns de família, na coleção de diplomas que a artista amealhou numa vida inteira dedicada a cursos e oficinais e salões de arte.

 

“Isso tudo era um sinal para mim como curador, um sinal processual”, explica Cocchiarale. “Eu estava diante de alguns fatos. Tinha visto na minha frente uma maçaroca de coisas, tinha sentido uma puta pegada. Mas não podia dizer, por exemplo, que ela foi uma artista outsider da nova figuração brasileira. Porque não foi. Nem poderia dizer que as performance dela são uma antecipação da arte contemporânea. Porque não são. Muitas vezes as pessoas acabam levadas a definir uma obra de arte de acordo com os repertórios delas próprias, não de acordo com a obra em si.”

Cocchiarale se viu diante de uma obra plural que não se adequava a nenhuma gavetinha pré-determinada, escola ou filiação, movimento geracional algum. “A falta do reconhecimento a respeito da qualidade do trabalho dela se deve, um pouco, à essa incapacidade de se enquadrar a produção em dois ou três rótulos. E isso é uma questão. Marshall McLuhan dizia que o meio é a mensagem. Hoje vivemos numa época em que o mailing é a mensagem. Ou seja, tudo virou verbal. As pessoas não conseguem se acercar de uma obra de arte se ela, em princípio, não narra o que gostariam. Mas quem diz que uma obra de arte precisa narrar o que quer seja?”

 

Essas foram algumas especulações e inquietações de Fernando Cocchiarale sobre o trabalho de Nilce Hanashiro para deixar de pé esta mostra. A questão recaiu sobre a relação entre arte e palavra. O maior problema para quem fosse montar uma exposição de Nilce, acredita Cocchiarale, seria tentar partir da palavra para a montagem. Quer dizer, enquadrar a obra em noções anteriores a ela.

Para tomar um sentido inverso, indo das imagens para a palavra curatorial, Cocchiarale buscou auxílio intelectual em Harald Szeemann. Quando à frente da Documenta 5 em Kassel, Alemanha, em 1972, o curador suíço cunhara o conceito de mitologias individuais.

“As mitologias individuais entram como um critério alternativo à história da arte, como nova maneira de montar e conceber exposições”, resgata Cocchiarale, que escreveu um texto a cotejar a obra de Nilce e o pensamento de Szeemann, documento que integrará o catálogo da mostra. “Não seria a história da arte que já conhecemos, muito eurocêntrica, seguindo determinados movimentos artísticos. Seria uma história criada em torno de intensidades. Seria a tentativa de cada artista impor sua própria ordem à grande desordem do mundo.”

Uma mostra de arte, então, nesse sentido de mitologia individual, seria como a vida concentrada em forma de exposição.

Bernardo Scartezini/Especial para o Metrópoles
Registro de performance de Nilce Eiko Hanashiro

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