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Fim de tarde de um domingo, chegamos a um parquinho movimentado. Miguel, 4 anos, aproxima-se de um dos brinquedos (uma casinha de onde saem vários escorregadores), mas é barrado por uma garotinha bem decidida: “Você não pode subir aqui, nós chegamos primeiro”, diz a baixinha.

“Nós”, no caso, um grupo de quatro ou cinco crianças com idades diversas.

Internamente, minha leoa feroz dá um rugido raivoso e quase sai para tirar satisfação com a pequena déspota: “Quem você pensa que é? O parquinho é de todos!”

Mas respiro fundo e observo o desenrolar da cena. Tenho interesse em descobrir se Miguel consegue sair dessa sozinho.

“Mas eu também quero brincar”, ele responde, meio acuado.

A menina fecha ainda mais a cara, sem pensar em ceder. Minha leoa não se segura e decide intervir: “O parquinho é de todos, vocês precisam dividir o espaço”. A autoridade moral do adulto derruba a resistência, e Miguel pode, finalmente, usufruir do brinquedo.

Eu respiro aliviada, mas fico pensando se não devia tê-lo deixado resolver o problema por si mesmo. Será que já não estava na hora de ele se impor diante de uma dificuldade como essa? Existe hora para isso?

A psicóloga infantil Juliana Barbosa explica que não. “Temos a tendência de pensar em uma linha reta, crescente e dividida por números, quando falamos em aprendizagem e desenvolvimento infantil, mas não tem como definir uma idade para esperar que a criança se comporte socialmente da forma X ou Y”, diz. “Não é a mesma coisa do que dizer que um bebê, normalmente, senta sozinho até os 10 meses e anda até 1 ano e meio”, acrescenta.

Ela pondera, entretanto, que a necessidade de se impor surge com mais intensidade no período de escolarização – mas isso não quer dizer que o “treinamento” não possa começar antes, na creche ou no relacionamento com irmãos.

Em situações de conflito nas quais for necessário intervir, Juliana recomenda que os adultos incentivem um acordo no qual todos saiam beneficiados. Por exemplo, se a disputa é por um brinquedo, o melhor é que consigam usufruir juntos ou revezem em intervalos curtos de tempo. De toda forma, o mais importante é o exemplo.

“Se a criança não encontra espaço de diálogo e negociação na relação com os pais e irmãos, pode ser que não se sinta capaz de fazer isso em uma relação de conflito entre amigos”, diz Juliana.

O diálogo é também importante para que meninos e meninas desenvolvam autoconfiança e se sintam seguros para recorrer aos pais quando estiverem em apuros. “Se a criança entende que pode chegar em casa, contar sobre as suas dificuldades com os amigos e ser ouvida verdadeiramente, o seu processo de autonomia se fortalece, pois ela percebe que pode dar um passo rumo à independência – mas, se precisar, pode dar dois em direção aos pais.”



 


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