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Vivemos em um mundo letrado. Se somos de uma família economicamente privilegiada, compramos livrinhos para o bebê ainda na gestação. Quando a criança começa a falar, ensinamos a identificar as letras – mesmo que, para ela, A, B e C sejam desenhos.

Ficamos ansiosos para o momento em que nossos filhos vão começar a ler e escrever, desvendando palavras e seus significados. Mas existe uma hora certa para isso?

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação estabelece a obrigatoriedade de matrícula no ensino fundamental aos 6 anos. Isso significa que a alfabetização deve começar por volta dessa faixa etária.

Na realidade, entretanto, o aprendizado pode ter início antes ou depois, depende muito das expectativas de cada família. “Há linhas pedagógicas que sustentam o início do processo aos 4 anos. Outras, só a partir dos 7”, explica a pedagoga Ana Cristina Cabral Neves. Ela enumera três principais linhas de alfabetização:

1) Aprendizagem acelerada: surgiu a partir dos avanços da neurociência, que identificaram uma capacidade muito grande de o cérebro aprender coisas novas durante a infância. “Essa corrente também ganhou força com a popularização do computador. Especialistas passaram a investigar formas de acelerar o cérebro para que se aprendesse mais, na velocidade da tecnologia”, detalha Ana Cristina. Nesta linha, por vezes conhecida como aprendizagem moderna, a alfabetização tem início por volta dos 4 anos. Em geral, são usadas técnicas de repetição para a fixação do conteúdo.

2) Método piagetiano: Jean Piaget foi um biólogo e filósofo suíço responsável por uma série de pesquisas sobre o desenvolvimento da inteligência em crianças e adolescentes. Grosso modo, o método procura aliar a alfabetização com o desenvolvimento cognitivo da criança, que ocorre aos poucos. Também compreende que meninos e meninas são sujeitos do próprio aprendizado, absorvendo o conhecimento e utilizando-o para formular novas interrogações. “Esse método também considera a questão da motricidade fina, que pode levar tempo para ser desenvolvida”, acrescenta a pedagoga.

3) Pedagogia Waldorf: criada pelo filósofo e educador austríaco Rudolf Steiner, ela compreende que a alfabetização deve ocorrer de forma lenta e gradual, sempre permeada por atividades lúdicas e artísticas. Pela pedagogia Waldorf, o letramento tem início aos 7 anos, quando a criança já tem o desenvolvimento motor, cognitivo e emocional mais maduro. “Esse método questiona qual o propósito da alfabetização. Será que não é melhor desenvolver plenamente a questão emocional para, então, partir para o aprendizado da questão lógica?”, ilustra Ana Cristina.

A pedagoga esclarece que não há certo e errado na escolha do método a ser adotado. “A família precisa considerar seus objetivos, seu modo de encarar a vida”, diz.

Ela ressalta, contudo, a importância de dar atenção ao desenvolvimento emocional das crianças, ainda que seja adotado o método de aprendizagem acelerada. “Se você só trabalha o cognitivo, pode ter um déficit mais para frente, como é o caso de adultos geniais sob vários aspectos, mas que não conseguiram amadurecer nas relações pessoais”, frisa.

Além disso, a família deve considerar as peculiaridades das crianças, especialmente no caso de irmãos. “Pode ser que um dos filhos tenha mais facilidade para reproduzir o que aprendeu, enquanto o outro não tem. Nesse caso, é importante tomar cuidado, para que o segundo não tenha a autoestima abalada e, consequentemente, o processo de aprendizado prejudicado”, alerta. “Respeitar a individualidade é fundamental.”



 


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