Por que (e como) educar as crianças para a diversidade e o respeito?

Segundo a terapeuta ocupacional Tatiana Barcelos Pontes, a tolerância deve ser parte da vida e da vivência infantil

atualizado 28/06/2019 9:57

Dias atrás, Miguel chegou em casa contando que Deus havia criado a Terra em sete dias. Eu quase engasguei com a comida.

Não que eu duvide dos poderes de Deus para quem assim acredita, mas é que nós (eu e o pai dos meninos) nunca havíamos contado a história dessa maneira. Sempre fizemos questão de explicar os fatos à luz da ciência. De onde é que aquilo tinha saído?

Foi na escola, descobrimos depois, que Miguel ouviu essa versão. Em uma conversa com um coleguinha, com quem disputou a narrativa de um jeito típico para meninos de 5 anos: “Eu estou certo!”. “Não, eu é que estou!”. Pobre da professora.

Essa história chamou a minha atenção para a necessidade de educarmos crianças para o respeito à diversidade e à tolerância. Porque, afinal, essa pode ter sido a primeira, mas certamente não será a última vez que meu filho estará diante de algo assim.

Mas, como fazer, então? A terapeuta ocupacional Tatiana Barcelos Pontes, doutora em Saúde da Criança e do Adolescente e professora da Universidade de Brasília, diz que a educação para a diversidade vem de berço, no sentido literal da expressão. Nesta entrevista, ela fala sobre os inúmeros desafios relacionados a essa tarefa:

Existe uma hora certa para falar com crianças sobre tolerância e diversidade?
Não acredito que exista um momento para se iniciar a discussão sobre diversidade, mas, se ele existisse, deveria ser antes do nascimento da criança. Na preparação dos pais para a maternidade/paternidade. Na escolha de um enxoval que não seja determinista, rosa ou azul. Pode ter rosa e azul, sim, mas pode ter amarelo, verde, roxo e preto. Ou ao nascimento, quando meninas são marcadas com brincos enquanto ainda não podem expressar sua vontade. Diversidade deve ser parte da vida, da vivência da criança. Ninguém espera a criança fazer 8 anos para ensinar a respeitar os mais velhos ou 5 anos para dizer que não se deve agredir os animais. Por que, então, existiria uma idade para se ensinar respeito às diferenças quando o assunto é gênero, presença de deficiência, religião ou raça? Respeitar a diversidade é respeitar o próximo.

Muitos pais não sabem qual o melhor jeito para colocar esse tipo de valor.
Se a criança está inserida num contexto de respeito à diversidade, ela não precisa ser ensinada, isso é parte do próprio contexto. Acontece que o ambiente nem sempre favorece a tolerância. Preconceito é algo aprendido, ou seja, a criança não nasce achando que o legal é ter cabelo liso ou que rosa é cor de menina. Vou dar um exemplo para ilustrar como isso é complexo: nunca ensinamos ao meu filho que tal cor era de menina ou de menino e procuramos uma escola que seguisse a mesma linha. Acontece que os amiguinhos dele falaram isso e ele começou a reproduzir. Meu filho tem 2 anos! Isso nos mostra a importância de vigiarmos nossos atos, nossa fala. Claro que muitas vezes vamos ter deslizes, pois estamos desconstruindo nossos próprios preconceitos, mas é importante estarmos atentos sempre, pois seremos o principal modelo.

E você tem alguma dica que facilite a compreensão por parte das crianças?
O primeiro passo é construir na criança o entendimento que somos todos diferentes. E que isso é o legal de vivermos em comunidade. Não é preciso concordar para respeitar, e esse respeito é o que vai gerar harmonia entre as pessoas. Só que esses ensinamentos passam primeiramente pelo agir, seja em casa ou na escola. Infelizmente, em muitas situações, dizemos à criança que meninos e meninas são iguais, mas depois do almoço pedimos à menina para tirar a mesa enquanto o menino vai brincar. Na escola, queremos que a criança inclua o coleguinha com deficiência, mas no ensaio da festa junina, esse colega não participa. Criança é como esponja. Aprende com nossos atos, nossas palavras, nossos olhares e nossa omissão, seja na escola, em casa ou no parquinho.

Reprodução
A terapeuta ocupacional Tatiana Barcelos Pontes

 

Em muitos casos, principalmente no que diz respeito à diversidade sexual, as famílias não sabem como agir. O que você diria?
As diferenças entre condutas devem ser explicadas claramente e em poucas palavras às crianças. Todas as dúvidas que os pequenos trazem devem ser respondidas de maneira simples, sem que se adiante o que não foi perguntado ou que não faz parte da curiosidade da criança. Use termos simples, mas nomeie de forma correta. Ninguém inventa nome para braço ou dente, mas pênis, vagina e vulva são sempre tabu. Só que essas são apenas partes do corpo humano, como a perna!

E quando há alguma questão relacionada à religiosidade (como ilustrado no início deste texto)?
Acho que aqui cabe a distinção entre fé (religião) e ciência. Ponto de vista é não participar do Halloween ou da festa junina porque isso vai contra suas crenças. Mas criacionismo, Terra plana já são coisas que invadem o campo da ciência. O ponto de vista não pode afrontar o outro, não pode ser usado como desculpa para o preconceito ou escudo para a ignorância. Pular sete ondas para trazer boa sorte no Réveillon é questão de fé, mas entender que a Terra é redonda é questão de ciência, e essas duas esferas não devem se misturar.

O que se ganha, a longo prazo, o ensinar o respeito à diversidade?
Isso é cada vez mais importante, porque leva a uma diminuição da violência contra o outro, física ou psicológica (bullying). Estar inserido, fazer parte, ser respeitado em suas escolhas reduz a ocorrência de doenças mentais e mesmo de suicídio, tão prevalente hoje em dia entre crianças e adolescentes. Aceitar a si mesmo e respeitar o outro são caminhos para a felicidade… e quem não quer ser feliz?

SOBRE O AUTOR
Carolina Vicentin

Jornalista formada pelo Centro Universitário Iesb, com especialização em Bioética e em Marketing Digital. Trabalhou nos jornais Metro, Correio Braziliense e Jornal do Brasil e como consultora do Sebrae e da Organização dos Estados Ibero-americanos (OEI). Foi também assessora de imprensa da reitora da Universidade de Brasília (UnB). É cofundadora e repórter da Revista AzMina e vencedora de dois prêmios nacionais de jornalismo: Embratel e FBH Synapsis.

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