Por meus filhos, enfrento até as terríveis baratas

Matar uma barata sozinha despertou em mim o peso da responsabilidade de ser mãe

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atualizado 06/09/2019 9:31

Às vezes, me perguntam quando eu senti o peso da responsabilidade de ser mãe. Ao descobrir a primeira gravidez? No parto? Lidando com a primeira noite de choro? Nada disso. O peso veio quando a primeira barata nojenta apareceu e eu percebi que era hora de resolver o problema sozinha.

Lembro como se fosse ontem. Era verão, eu amamentava tranquilamente, por volta das 2h da manhã, quando ela surgiu: marrom, gorda, com antenas enormes a se anunciar. Entrou pela porta do quarto do bebê e eu só pude exclamar: mas que audácia! Quem você pensa que é para adentrar este ambiente sagrado?!

Pensei em gritar, chamar a polícia, a vigilância sanitária. Enquanto eu refletia, a barata ficou passeando pelo quarto e se escondeu atrás do trocador. Meu instinto materno, então, falou mais forte. Enchi-me de coragem, coloquei meu filho no berço. “Calma, Miguel, que a mamãe vai matar o monstro.”

Foi preciso acender a luz, me armar com inseticida, vassoura e desinfetante. Depois de, literalmente, tirar quase todos os móveis do lugar, encurralei a dita-cuja e a finalizei. Vitória! Vencido o medo, sobrou o nojo, para recolher o cadáver espatifado. Por sorte, Miguel era um bebê tranquilo e não se incomodou com aquele alvoroço na madrugada.

Quase seis anos se passaram desde então e eu já enfrentei algumas outras baratas. Mas nenhuma delas foi tão significativa quanto a última. Basicamente, porque ela resolveu dar as caras, ou melhor, as antenas, na frente dos meus filhos. Ou seja, eu não apenas precisava ser corajosa e ter estômago, eu precisava DEMONSTRAR que era corajosa e tinha estômago.

O inseto se anunciou por entre uma fenda do rejunte que fixa o vaso sanitário ao chão. Ao visualizá-las, as antenas, gelei. Ordenei ao meninos: calma. C-A-L-M-A. Não se mexam. Só respirem! Eles, coitados, que nada tinham percebido, ficaram inseguros ao ver a mãe daquele jeito, claramente insegura. Errei feio, errei rude na pedagogia..

Mas, por fim, deu tudo certo. Disparei uma enorme quantidade de inseticida em cima das antenas e fiquei ouvindo aquele barulhinho de inseto agonizante para o lado de dentro do rejunte, não sem sentir um pouco de prazer, confesso. Aí é que as crianças não entenderam nada.

Aproveitei a visita de minha vizinha com o marido para, quase que em tom imperativo, pedir: podem, peloamordedeus, reforçar o rejunte do vaso sanitário? Tipo, agora! Pago com bolo. Cerveja. Fico com as crianças de vocês por uma noite! Negócio fechado.

Barata emparedada, minha casa segura e eu eternamente a torcer para que nenhuma delas apareça voando pela janela.

SOBRE O AUTOR
Carolina Vicentin

Jornalista formada pelo Centro Universitário Iesb, com especialização em Bioética e em Marketing Digital. Trabalhou nos jornais Metro, Correio Braziliense e Jornal do Brasil e como consultora do Sebrae e da Organização dos Estados Ibero-americanos (OEI). Foi também assessora de imprensa da reitora da Universidade de Brasília (UnB). É cofundadora e repórter da Revista AzMina e vencedora de dois prêmios nacionais de jornalismo: Embratel e FBH Synapsis.

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