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Não sei exatamente quando me assumi feminista, mas sei o porquê: por causa dos meus filhos. Não que, antes deles, eu pensasse ou agisse de forma radicalmente diferente, mas a maternidade joga tanta coisa na nossa cara que, bem, eu tive que “sair do armário”. Aliás, acho que, se alguma mãe (ou pai) ainda não o fez, deveria.

Basicamente, porque feminismo é sobre igualdade, respeito e direitos iguais, para homens e mulheres – coisas que, imagino eu, boa parte das mães e pais deseja passar para seus filhos. Infelizmente, porém, a palavra “feminismo” ainda é tremendamente malvista. Com frequência, as pessoas a associam unicamente a mulheres com o sovaco peludo e/ou que não usam sutiã. Pior: muita gente – mulheres, inclusive – ainda acha que feminismo é pura e simplesmente a “versão feminina” do machismo.

No livro “Você já é feminista!“, da Editora Pólen, organizado pela jornalista Nana Queiroz, há uma série de artigos que buscam eliminar os estigmas do movimento, trazendo exemplos de como o feminismo está, ou deveria estar, no cotidiano de todos. “Uma feminista surge quando uma pessoa percebe que está sujeita a jogos de poder em função de sua condição de gênero”, resume a filósofa Marcia Tiburi, na apresentação do livro.

Às vezes, esse clique acontece bem cedo, às vezes, mais tarde. No meu caso, foi durante a minha jornada da maternidade. Ainda grávida do meu primeiro filho, eu percebi, por exemplo, que as pessoas me olhavam como se tivessem direito sobre o meu corpo.

Se a sociedade julga as mulheres pela roupa ou pela aparência física, quando elas engravidam, isso é elevado à décima potência. Se ela engordou muito, se ela engordou pouco, se está mantendo uma alimentação regrada, se come doces sempre que tem vontade, se ficou abstêmia ou se tomou um chopinho, a patrulha está sempre de olho em tudo, pronta para julgar.

No processo do parto, veio outro choque. De maneira geral, os profissionais da saúde adotam uma postura que mina a confiança das mulheres, fazendo-as acreditar que a chegada de um filho é uma coisa complicadíssima. Eu tive o privilégio de poder bancar uma assistência de qualidade nos partos dos meus dois filhos, o que fez com que eu e meu companheiro vivêssemos experiências incríveis.

Essa não é, contudo, a realidade da maioria das brasileiras, que estão sujeitas a diversos tipos de violência obstétrica. Agendar uma cesárea sem real indicação clínica (contrariando a vontade da mulher) ou realizar a episiotomia (corte na região entre a vagina e o ânus) sem om consentimento da gestante são alguns exemplos desse tipo de violência. Mandar que a mulher não grite durante o trabalho de parto ou dizer coisas como “na hora de fazer, você não reclamou” também.

O “peso” da maternidade
Depois que o bebê nasce, então, o feminismo se faz ainda mais necessário. Mais uma vez, estou em uma situação privilegiada, mas, não raro, as mulheres são apontadas como as únicas responsáveis pela criança. Em um recente vídeo, a comediante Ali Wong ironizou: “é preciso tão pouco para ser considerado um grande pai e também tão pouco para ser considerada uma mãe de merda.”

Além disso, não há momento mais claro para perceber os estereótipos de gênero do que quando estamos educando crianças. Desde muito cedo, há uma divisão do mundo infantil entre coisas de menino e coisas de menina, o que acaba por fortalecer a desigualdade. Já escrevi sobre isso, mas é sempre bom lembrar que criança gosta de brincar, não importa se de boneca ou de carrinho.

Essa divisão está tão enraizada que, mesmo pessoas bem-intencionadas acabam impondo às meninas a delicadeza e os “bons modos”, enquanto, dos meninos, é cobrada a “macheza”, a virilidade. Perceber como esse tipo de coisa está nos nossos discursos e comportamentos requer esforço – muitas vezes, a gente vira o chato mesmo. Mas acho que vale a pena, e é o melhor que posso fazer pelo futuro dos meus filhos. Aqui tem mãe feminista, e aí?



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