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Poucas coisas podem ser tão assustadoras quanto um diagnóstico de câncer. Medo da morte, do tratamento, dos efeitos colaterais dos remédios e da batalha que está por vir são algumas das coisas que passam pela cabeça de quem ouve a confirmação: é maligno. Quando se é mãe, então, o medo de sucumbir à doença ganha ainda um outro significado.

“Não é o medo da morte, em si, mas de deixar o meu filho, de 6 anos, sozinho”, diz a bancária Ludmila Paranhos (na foto acima), 33 anos, que descobriu um tumor na mama direita em março deste ano. Ludmila passa por um difícil processo de divórcio do pai de Artur e essa situação agrava os temores que sente. “Meu filho precisa de mim viva, forte.”

Foi pensando no menino que Ludmila encomendou a peruca de cabelos escuros, com uma franja farta, para quando a medicação deixasse seu rastro mais evidente. “No dia em que eu raspei a cabeça, ele ficou assustado e chorou muito”, lembra. “Até hoje, ele reza à noite para que Papai do Céu não me deixe morrer.”

Nos últimos sete meses, a bancária tem encarado o tratamento da forma mais tranquila e relaxada possível, tentando manter a rotina de Artur. Mesmo afastada do trabalho e em meio às sessões de quimioterapia, fez questão de levar e buscar o menino na escola todos os dias.

O tumor regrediu e, no próximo dia 18, Ludmila passará por uma cirurgia na mama. Também neste dia saberá o que é um outro nódulo surgido no seio esquerdo.

O câncer não é o centro da minha vida. É uma parte dela, que eu, infelizmente, tenho que encarar"
Ludmila Paranhos

Pensando no futuro

A descoberta da doença também levou a bancária a pensar na possibilidade de ter mais filhos no futuro. Um dos oncologistas que a atendeu explicou que o tratamento do câncer poderia deixa-la infértil. “Ele me disse: você não vai morrer disso. Acho interessante você pensar na hipótese de querer um ou mais filhos daqui a alguns anos”, conta.

A quimioterapia e a radioterapia têm como um dos efeitos a interrupção da menstruação e o potencial para causar danos irreversíveis aos ovários. No caso específico do câncer de mama, o que mais atinge as mulheres, a chance de infertilidade pode chegar a 80%. Além disso, antes de pensar em engravidar, as pacientes precisam passar por um tratamento extenso com hormônios. Ludmila, por exemplo, terá de tomar remédios por 10 anos.

Mesmo que a mulher retome seu potencial reprodutivo, o que é possível, principalmente para as mais jovens, a qualidade e a quantidade dos óvulos não será a mesma de antes"
ginecologista Bruno Ramalho, especialista em reprodução assistida

Para fazer uma espécie de “seguro”, a recomendação é congelar óvulos, em um processo conhecido como preservação da fertilidade. “Esse, na verdade, é um nome equivocado, porque o que se preserva é o óvulo”, esclarece o ginecologista Bruno Ramalho.

Para o procedimento, a mulher, basicamente, superestimula a produção de óvulos, que são capturados por punção vaginal e, depois vitrificados. No futuro, para que isso resulte em uma gestação, será necessária uma fertilização in vitro, cujas taxas de sucesso giram em torno de 50%.

“Eu não penso hoje em ter mais filhos, mas o poder de escolha que eu terei no futuro me deixa muito segura”, diz Ludmila, que passou pelo procedimento antes de iniciar a quimioterapia. Segundo Ramalho, cerca de 60 mil mulheres poderiam ser beneficiadas com a técnica por ano no Brasil. “Isso é uma das coisas que melhora o prognóstico das pacientes”, aponta.

Quanto antes, melhor

Um dos maiores desafios para a difusão da técnica é a sensibilização dos oncologistas. Ramalho conta que, atualmente, a maioria das pacientes que o procuram chegam prestes a iniciar o tratamento contra o câncer, o que lhes dá poucos dias para fazer a preservação. Mas já foi pior: há três anos, era mais comum que elas chegassem já durante o processo, com a qualidade dos óvulos já prejudicada.

“Não são todos os profissionais que recomendam a preservação, por desconhecimento ou porque temem riscos na superestimulação ovariana. Mas não temos evidência clínica de que isso piore o quadro da paciente. Além disso, existem drogas que bloqueiam a ação dos hormônios sobre o tumor”, esclarece Ramalho.

A técnica, contudo, está restrita a quem tem dinheiro – pelo menos no DF. O Programa de Reprodução Assistida da Secretaria de Saúde interrompeu a preservação de fertilidade há cerca de dois anos, por falta de espaço para abrigar os botijões com os óvulos vitrificados. A coordenadora do programa, Rosaly Rulli, lamenta o descaso. “O câncer tem hoje uma outra abordagem em relação ao passado, e esse tipo de técnica traz uma nova perspectiva para as pacientes”, diz Rosaly. “Queria que a secretaria enxergasse com esses olhos a necessidade de ampliação do nosso espaço.”



 


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