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Todos os dias, a auxiliar administrativa Wanusa Anselmo, 34 anos, sai de casa, no Gama, e faz uma viagem de mais de duas horas para chegar ao trabalho, na Asa Norte. Antes de deixar a residência, ainda no escuro, beija o filho Joabe, 4 anos, que cria sozinha, com apoio dos avós maternos.

Wanusa é uma entre milhares de brasileiras carregando a tarefa de educar os filhos sem o apoio dos pais. Uma pesquisa do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), com base no Censo Escolar de 2011, apontou: há 5,5 milhões de crianças brasileiras sem o nome do pai na certidão de nascimento. Isso sem contar as outras milhares com o nome do genitor no documento, mas que não contam com qualquer tipo de cuidado ou atenção por parte do fornecedor masculino da carga genética.

Foi o que aconteceu com Joabe. Embora tenha sido registrado pelo pai, em quatro anos, só houve três visitas ao menino. “Ainda na minha gravidez, ele começou a se afastar, dizendo não estar pronto para o casamento e com problemas com drogas”, conta Wanusa. “Foi uma fuga, uma forma de se isentar da responsabilidade”, diz, ressentida.

“A renúncia de um homem significa uma mulher sobrecarregada, que terá sua vida social, financeira, afetiva, acadêmica e de trabalho impactadas pela ausência”, aponta a escritora e ativista negra Stephanie Ribeiro em um texto bastante explicativo sobre o chamado abandono paterno.

Legar exclusivamente à mulher a responsabilidade pelo cuidado com as crianças é reflexo de uma cultura machista – que ainda perpetua a máxima “quem pariu Mateus que o embale”. Nós deixamos nossos empregos para ficar com as crianças pequenas, sofremos preconceito no mercado de trabalho porque podemos engravidar – ou porque já temos filhos –, somos cobradas para sermos presentes e darmos o nosso melhor.

Dos homens, em geral, pouco ou nada se cobra – ou porque são “imaturos” para serem pais ou porque estão muito ocupados cuidando da própria carreira. Enquanto isso, as mães ficam com tudo o que envolve a criação de um ser humano: comida, roupa, educação, afeto, lazer, presença.

Wanusa, a mulher que representa milhões neste texto, entrou na Justiça para pedir a pensão alimentícia quando o filho estava com 1 ano. Conseguiu um desconto na folha de pagamento do ex-companheiro equivalente a 15% do salário. Mas o valor é volátil, conforme as horas trabalhadas pelo pai, e raramente ultrapassa a faixa dos R$ 300.

Não é essa, entretanto, a pior frustração dela. “Eu fico chateada pelo meu filho, pensando em como vou explicar quem é o pai dele, por que ele não está presente”, diz, com lágrimas nos olhos. “Esses dias, ele perguntou ‘mamãe, você é casada com o meu avô?’, querendo entender se o meu pai era também o dele.”

 
“Em algum momento, ele vai descobrir quem é o pai dele.”

E que a gente possa, no futuro, mudar realidades como a de Wanusa.



 


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