">
*
 
 

A semana começou com a notícia do brutal assassinato da estudante Raphaella Noviski, 16 anos, dentro da escola em que estudava, em Alexânia. O autor confesso do crime, Misael Pereira, 19 anos, entrou na sala de aula e atirou 11 vezes contra a garota, sete delas no rosto. Nas capas dos portais e jornais, em letras grandes, a descrição do rapaz: covarde, assassino, doente.

Misael, contudo, não é uma exceção. Ele representa o homem comum, que “perdeu a cabeça”, “foi rejeitado”, “ficou inconformado” com o “não” de uma menina. Esta semana, foi Raphaella. No mês passado, foi Camilla Abreu. No ano passado, Louise Ribeiro.

Notícias sobre casos assim pipocam todos os dias e fazem do Brasil um dos campeões de feminicídio (quando o assassinato decorre da condição de ser mulher). Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o feminicídio atinge 4,8 a cada 100 mil mulheres no país, o que nos deixa com a quinta posição no ranking global desse tipo de crime.

Vergonha e medo são meus sentimentos em relação a isso. Medo, por ser mulher e vergonha, por perceber o quanto estamos falhando enquanto sociedade, especialmente no que diz respeito à criação de meninos. Não estamos conseguindo educar garotos para a igualdade e para o respeito e, como consequência, massacramos nossas meninas e mulheres.

Até quando? O quê fazer para mudar isso?

Como mãe de dois meninos, sinto uma responsabilidade gigantesca na formação do caráter deles. E faço um esforço tremendo para que tenham uma relação bacana com a própria masculinidade.

Sem a pretensão de ser exaustiva, aqui vai uma lista de coisas que acredito serem importantes nessa questão:


1.
Para começar, é fundamental para nós, pais e mães, acolhermos os nossos meninos e seus sentimentos. É importante eles demonstrarem afeto, chateação, raiva. Chorarem, expor suas tristezas. Não podemos silenciá-los com o argumento de que lágrimas não são coisa “de homem”.

O maravilhoso documentário “The Mask You Live In” (disponível na Netflix) traz números assombrosos sobre os efeitos desse “silenciamento afetivo” na vida dos rapazes. Com o passar do tempo, de tão sufocados, eles são mais frequentemente acometidos por depressão, alcoolismo e tentativas de suicídio.

2. Precisamos ensiná-los a lidar com as frustrações. Todas as crianças precisam aprender isso, é verdade. Faz parte do longo caminho para a consolidação da resiliência e da inteligência emocional.

Culturalmente, entretanto, tendemos a ser mais permissivos com os meninos. Se são mais bagunceiros, agitados, serelepes, achamos graça, relevamos. “Coisa de moleque”, dizemos. Das meninas, pelo contrário, desde muito cedo é cobrado que se comportem como “mocinhas”, andem de pernas fechadas e ajudem nas tarefas de casa. Exigir o mesmo de garotos e garotas é um dos caminhos para a construção da igualdade.

3. Respeito ao corpo do outro, sempre. Todas as minhas conhecidas já sofreram com atitudes de colegas da escola. Desde o menino que colocava cigarras no cabelo das amigas, até aquele que puxava a alça do sutiã ou passava a mão na bunda de alguém na hora do recreio.

Ensinar, desde cedo, a importância do consentimento é um dos caminhos para enfrentar essa questão. E é válido, também, para os próprios meninos aprenderem a denunciar tentativas de abuso sexual.

4. A escola precisa discutir os papéis de gênero. Crianças passam cada vez mais tempo longe da família, e os educadores têm o dever de trazer reflexões sobre o que é ser menino e menina em nossa sociedade. O trabalho do professor de educação física em uma escola pública do DF é um exemplo de como o assunto pode ser abordado, de forma divertida e interdisciplinar.

Em Nairóbi, capital do Quênia, onde uma em cada quatro garotas já foi estuprada, um programa de masculinidade positiva também tem registrado conquistas impressionantes nessa seara.

Mudar comportamentos tão profundamente enraizados levará um bom tempo, mas não podemos nos furtar dessa missão. Desejo que, no futuro, homens conscientes e respeitosos suportem as mulheres, as apoiem. Assim, deixaremos de amargar índices tão dramáticos de violência de gênero.

Violênciafeminismogênero
 


COMENTE

Ler mais do blog